Não quero deixar de te contar um caso que me contou o meu amigo Tesmópolis, o estóico, acontecido com ele, [caso] muito engraçado e, por Zeus!, não impossível de acontecer a qualquer outra pessoa. De facto, ele vivia em casa de uma certa mulher muito rica e muito sensual, das mais distintas da cidade. Ora, um dia em que precisaram de viajar, diz ele que suportou, logo de começo, uma situação muitíssimo caricata, que foi fazerem-no sentar — a ele, um filósofo — ao lado de um maricas de pernas depiladas e de barba toda rapada, que
a senhora, obviamente, tinha em grande estima. [Tesmópolis] referiu mesmo o seu nome: chamava-se Quelidónio. Desde logo, que coisa mais esquisita, esta de estar sentado ao lado de um homem velho e carrancudo, de barbas grisalhas — tu sabes como Tesmópolis tinha uma barba farfalhuda e venerável —, um
sujeito com as faces besuntadas de rouge e com os olhos inferior mente pintados, de olhar inconstante e
pescoço escanzelado, já não uma ‘andorinha’, mas, por Zeus!, um [autêntico] abutre [de pescoço] pelado.

Se não o tivessem admoestado por diversas vezes, ele ter-se-ia sentado com uma touca na cabeça. Além do mais, durante toda a viagem provocou mil e uma situações desagradáveis, cantarolando e assobiando; e se o filósofo não o tivesse impedido, talvez dançasse dentro da carruagem.

Então é-lhe dada uma outra ordem, do género desta: A senhora chama-o e diz-lhe: “Tesmópolis, tem a bondade de me fazer um favor nada pequeno que eu te peço, não mo recuses nem esperes que eu insista no meu pedido.” E tendo ele. como é natural, prometido fazer tudo, diz a senhora: “Ao ver que tu és tão prestável, tão cuidadoso e tão carinhoso, peço-te que leves para a carruagem esta cachorrinha, que tu bem conheces, a Mírrina, que a guardes por mim e cuides de que nada lhe falte, pois a coitadinha tem a barriga pesada e está prestes a dar à luz. Durante as viagens, estes criados malditos e desobedientes não fazem caso nenhum de mim, quanto mais dela. Por isso, não julgues que é pequeno o favor que me fazes, ao cuidares desta minha cachorrinha tão querida e tão deliciosa.” Tesmópolis prometeu fazer o que a senhora lhe suplicava insistentemente e quase em lágrimas. A cena era completamente cómica, com a cachorrinha a espreitar por fora do manto e por debaixo da barba [do filósofo], e constantemente a urinar (embora Tesmópolis não acrescente este facto), ganindo com voz esganiçada — como fazem as cachorrinhas de Malta — e lambendo a barba do filósofo, principalmente nas partes em que havia algum resto do molho da véspera.

Um dia, o maricas que estivera sentado ao seu lado, escarnecendo dele diante dos outros convivas, aliás com certa graça, lançou este sarcasmo contra Tesmópolis: “A respeito de Tesmópolis, só tenho uma crítica a fazer: passou de estóico a… cínico.”. Fui até informado de que a cachorrinha havia dado à luz no manto de Tesmópolis.

Luciano de Samósata, Diálogo dos Mortos

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