A Reforma

Corria o ano de 1533, a Europa encontrava-se ameaçada pela ruptura política e religiosa. A França cercada por Carlos V; Francisco I a ameaçar a derrota que tivera no Sul; a Igreja perante a eclosão do cisma anglicano. Henrique VIII é excomungado ao divorciar-se para casar com Ana Bolena. Thomas More encontra-se preso.
Científica e filosoficamente a visão do cosmo medieval é posta em causa pelos triunfos da experiência. A par das teses heliocêntricas de Copérnico, gravitam as de Lutero, enquanto Erasmo de Roterdão prefere a distanciação de uma crítica irónica num Elogia da Loucura.

Hans Holbein, Os Embaixadores, 1533

Hans Holbein (1497-1543), pintor germânico, tornar-se o retratista da corte inglesa. As suas simpatias pelos ideais da Reforma eram conhecidas mas o cepticismo em relação à condição humana parece tê-las sobreposto quando pintou o quadro dos Embaixadores.
Num ambiente hierático, quase hiper-realista, o hiper-texto imbrica-se numa das mais eruditas Vanitas do género. O jovem núncio do Vaticano- Georges de Selves, encontra-se em Londres (o pavimento é o da abadia de Westminster) com o diplomata francês, Jean de Dinteville, de formação têm uma missão secreta a cumprir, impedir que o monarca da Velha Albion rompa com A França católica, favorecendo o avanço do Império.

O gabinete onde posam para este retrato de status e poder é um gabinete de curiosidades científicas.

Na mesa de tampo duplo dispõe-se, em dois andares, os objectos-signos do quadrivium- Ao alto, um globo terrestre, instrumentos astronómicos, livros e um relógio solar.
Em baixo, um globo celeste, um esquadro, um compasso, um alaúde e dois livros. Um deles a Aritmética dos Mercadores de Petrus Apianus (1527). Do lado do bispo, um erudito amador da Reforma que falava eloquentemente o Alemão, o Gerangbeiclein de Johann Walter, publicado em Wittenberg, no ano de 1524, aberto no coral de Lutero.

O laicismo de todo este saber é ameaçado por outros detalhes. Uma corda do alaúde- objecto dos exercícios de perspectiva científica e instrumento da harmonia musical, encontra-se quebrada. No chão, uma mancha disforme, colocada em cima dos azulejos da abadia de Westminster, ameaça todo o rigor e verdade da que ali se enuncia. Por trás dos embaixadores, a composição é fechada por um cortinado.

Desde a Idade Média que os panejamentos tinham essa função- velavam o só se dá a conhecer pela revelação de uma visão sagrada.
No canto superior esquerdo, um crucifixo, quase invisível liga-se, na diagonal, à disformidade anamórfica e o que estava oculto torna-se subitamente bem claro- uma caveira torna-se bem visível, trazendo a morte como destino de todos os poderes e saberes que se tornam vaidades.

O gabinete de curiosidades também é a câmara escura da pintura- o trompe-l’oeil da arte do engano anamórfico mais não é que a chave dos indícios que se escondem para melhor serem decifrados.
O silêncio impôs-se para que o logos, que a Ciência não comporta, enuncie a vanidade de todas as certezas- a Verdade única é Deus- só Este permite a redenção.

O “Gabinete da verdade está fechado mesmo aos santos e aos sábios” como disse Agrippa na “Declamação acerca da incerteza, vaidade e abuso das Ciências e das Artes”,
Erasmo de Roterdão, de quem Holbein era profundo admirador também já o havia enunciado a loucura dos sábios:
«confessa Jeremias: Todos os homens — diz ele no capítulo X — tornaram-se loucos à força de sabedoria. E atribui a sabedoria somente a Deus, deixando aos homens a loucura como predicado. Um pouco antes, diz ele: O homem não deve gabar-se da sua sabedoria. Mas, porque dizeis isso, oh santo, oh divino oráculo do futuro? É porque (assim me parece ouvi-lo responder) o homem não tem nenhuma ideia do que é a sabedoria»

As Luzes

Passaram mais de dois séculos; William Hogarth critica a contínua dependência da arte e modas cortesãs inglesas de França. Pela sátira vai tomando o pulso à sociedade e política da época, fazendo da gravura e da pintura autênticas charadas onde as picardias pessoais se misturam com um distanciamento mais cáustico do mundo que o rodeia.

The Election IV Chairing the Member, 1754-55 by William Hogarth © Bridgeman Art Library / Courtesy of the Trustees of Sir John Soane's Museum, London

A propósito das Eleições de Oxfordshire, onde jacobitas e oligarquia Tory conseguem suplantar a rivalidade pelo oportunismo, corrupção e compra de votos. Os resultados acabaram por ser contestados enquanto o próprio Hogarth fazia as pinturas e gravuras. Daí que na última- a da marcha triunfal do Tory vencedor, na gravura que se seguiu, um dos limpa-chaminés acaba a ser alvejado por um tiro do macaco que aparece na desordem, numa alusão à uma refrega dos Wighs com os Tories, quando os primeiros já estavam convencidos da vitória.

É precisamente este último quadro, de leitura complexa, da qual não existe unanimidade entre os estudiosos, que Hogarth invoca também as velhas vanitas, agora acompanhando os novos paradigmas das luzes.

As lutas partidárias haviam reduzido a descrédito o próprio sistema governativo e a alternativa para muitos só poderia vir de um patriotismo que estivesse acima das facções corruptas. Após a morte do príncipe Frederico, a esperança de união patriótica encontrava-se noutro príncipe de Gales- o futuro George III- Hogarth, era também esse o lado do próprio pintor, assim como o de George Bubb Dodington- o vencedor que acaba de ser eleito- com uma carreira política cheia de altos e baixos, mudanças e quedas- tal como aquela que está em vias de acontecer no quadro.

As ideias em que se sustentam vêm das teorias pensador e político Bolingbroke que, para além do espírito do patriotismo unificador, também era um forte adepto do empirismo Lockiano e um deista que acreditava na possibilidade de se provar a existência de Deus pela razão.

A marcha triunfal do Tory é uma paródia aos triunfos romanos sobre os bárbaros, nos quais sobrevoa uma águia por cima do herói. Aqui feito ganso, mais apropriado à situação- tal como o grasnar dos que auguravam os ataques dos bárbaros.

Os desacatos rebentam na frente do cortejo; a porca de Gadarene, investe na multidão, atira com uma mulher ao ar e está em vias de se precipitar, juntamente com os porquinhos, da ponte abaixo. A populaça que eleva a cadeira de um político, é a mesma que a logo a seguir a destrói mal este toma assento no poder. A velha balada patriótica do The Roast Beef of Old England– transforma-se num “The Roast Pork of Old England, /Oh! The Old English Roast Pork”.


A alusão ao Jew Bill– acta de legalização dos judeus estrangeiros, que apoiavam a facção jacobita e que havia passado no Parlamento, apesar da forte contestação popular e do partido conservador, mas que acabaram por capital já tinha acompanhado as anteriores figurações do Entretenimento Eleitoral, adquirem nesta final o sentido mais alegórico. Liderando este cortejo de pantomina, segue um pobre judeu cego, a tocar violino- o louco do “Arcano Sem Número”* atira-lhes as sortes- a morte entra na “dança” e a todos iguala, neste palco de vaidades e imposturas.

No muro da Igreja é ela que assiste trocista ao destino mundano: uma caveira com os ossos cruzados, colocada em cima de um livro, é adornada pelo limpa-chaminés com uns óculos.

Na parede um relógio de Sol inclui a inscrição WE MUST [die all]; PULVIS ET UMBRA SUMUS [não somos mais que pó e sombra]. Existem boas razões para se supor que Hogarth invocou aqui todo um sistema de Razão divinizada e científica, feita Verdade em lugar de Deus.

Esta exercício pictórico já não se desenrola numa “câmara escura” – tudo na estética de Hogarth aponta para o dinamismo, ordenado por um equilíbrio, onde a óptica é a ciência que acrescenta verismo a todos os pequenos apontamentos, mesmo os mais mascarados- A filosofia de John Loche em pleno casamento com a ciência newtoniana

A única realidade acessível é dada pelos sentidos- aqui figurados nos cheiros dos sais que reanimam a rapariga que teve o chilique, o paladar da gula do urso que devora restos de comida de uma vasilha; no tremendo chinfrim que ecoa na cena. O livro em que assenta a caveira deve ser a óptica de Newton, em sintonia com empirismo lockiano que já se tinha tornado “bíblia” dos jacobinos e maçons (com os quais Hogarth tinha ligações, apesar de inconstantes- a própria caveira dos ossos cruzados já fazia parte da simbologia maçónica).

Newton já tinha sido comparado a um Deus, ao ter decifrado as leis do Universo; Desaguliers dedicara-lhe poemas onde aplicava a teoria da gravitação universal, à filosofia política. A acção da vontade divina expande-se da mesma forma que o centro solar irradia ordem a todos os planetas e cometas- a monarquia limitada pela qual as Liberdades, Direitos e Privilégios nos são garantidos.

A chave da vanitas completa-se na melancolia que estes sinais de morte e sombra invocam- O relógio solar inverte-se- tornando-se trevas; o silêncio impõe-se, o que antes parecia riso e troça torna-se melancolia soturna.

Mas, agora já não é Deus que está do outro lado. Empirismo filosófico e racionalismo científico tinham-se fundido- a Verdade suprema tornou-se Razão- o caos e desordem deste palco deve-se a credulidades vãs- A harmonia é da ordem da Razão científica e nela já não há lugar para revelações por via da fé.

* A ideia do “Arcano sem Número” deve-se a um feeling imediato do nosso amigo z, que nada sabia do que este quadro tratava.
Consultar:
Para Hans Hobein-
. Jurgis Baltrusaitis, Anamorphoses ou Thaumaturgus opticus,Flammarion, Paris, 1984
. Omar Calabrese, “intertextualidade em pintura. Uma leitura de Os embaixadores de Holbein” Como se lê uma obra de arte, Lisboa, Edições 70, 1997
Para William Hogarth:
. AAVV, Hogarth Election Entertainment. Artists at the Hustings (exposição do Museu de Sir John Soane- 23 Março- 25 Agosto 2001), An Apollo Magazine Publication, London, 2001 (Elizabeth Einberg, The grand Finale: Newton reigns supreme. An interpretation of the setting of Chairing the Member, pp. 8- 11)
. Ronald Paulson, Hogarth– vol.3- Art and Politics 1750-1764), The Lutterworth Press, Cambridge, 1993.
ver também: aqui
The Works of William Hogarth: Containing One Hundred and Fifty-nine Engravings, Por William Hogarth, John Trusler, 1821

(a ideia da vanitas no quadro do Hogarth é hipótese nossa).

Pois é, CCz, esse é uma coisa tremenda.

Agora quanto às simbologias das 4 figuras há-de haver melhor estudo.

Obrigado Zazie,
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O texto é elucidativo, sobretudo as páginas 6 e 7, com a referência aos humores.
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O quadro 2 “Cristo Carregando a Cruz” é … sem palavras!

Imagens:

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http://gwydir.demon.co.uk/jo/gospels/eccehomo.jpg

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Depois confira, ccz- e se faltar alguma coisa diga.

Então aqui vai

Laurinda Dixon, Bosch, Phaidon, London/New York, 1ª ed., 2003

(texto)-
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What can I say… I’m speechless!!!
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Obrigado!
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ccz

(atrás queria dizer a tentação da certeza, de não ter dúvidas, de ter a mania que se sabe tudo)

A Laurinda Dixon também refere o mesmo, fala nas duas idades da humanidade e nos pecados relacionados com os 4 elementos e confronta com outras representações.

Fazemos assim. Eu digitalizo essas passagens e deixo aqui um link para o ccz apanhar.

Obrigado zazie,
.
É que li uma breve referência ao quadro num livro de gestão. Segundo o autor do livro, os quatro personagens que rodeiam o Cristo são quatro tentações, e o que segura o manto de Crito é a tentação certeza!!!
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O assunto fascina-me por isso quero ir um pouco mais fundo, para realmente confirmar a interpretação.
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Muito, muito obrigado.
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ccz

Viva ccz,

Difícil é encontrar um só livro que contenha boa interpretação de tudo do Bosch.
Nunca peguei nesse tema em particular, pelo que lhe posso apenas dizer que encontra alguma coisa na Laurinda Dixon, Bosch, da Phaidon (mas é essencialmente uma análise numa perspectiva alquímica) e depois tem a Isabel Mateo Gómez com uma série de estudos mais particularizados.

Eu creio que a Mateo é a melhor porque é uma excelente historiadora e conhecedora de iconografia. O problema é encontrar à venda os livros dela
“;O))

Por cá, mesmo nas bibliotecas há-de haver pouco porque eu bem sei como tive de usar o serviço de empréstimos da Nacional e do Instituto Cervantes.
A propósito- o Cervantes é muito bom e tem consulta directa, para além de serviço de empréstimos.

(olhe que aquilo é lixado para a judiaria eheheh).

Zazie:
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Sabe onde posso encontrar uma explicação para a composição do quadro de Bosch “Christ Mocked” ou “Cristo coroado de espinhos”?
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Obrigado
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ccz

é o Tolo e é o único que é feliz. Repara que o primeiro violino é que direige a orquestra na ausência do maestro,

bjo

Olá.
É uma boa pergunta e não sou eu que chamo- são os historiadores que já andaram às voltas com o Hogarth e, em particular, com esta série das eleições.

Eles são negros e a criada é amulatada e podem ser isso mesmo- meros criados que acompanham a senhora.
Mas, a verdade é que o Hogarth alterou a representação na gravura que fez depois do quadro- ainda durante as eleições. E aí o que se vê é o macaco a disparar a espingarda na direcção do pretinho que está a mijar. Como foi morto pelos whigs um limpa-chaminés, que acompanhava o séquito dos tories, relacionou-se o facto como uma alusão precisamente a esta morte.
Há outros autores que tendem a pegar apenas na questão simbólica do escuro- relacionando-a com o tal sentido de trevas.

Não se sabe. Eu também tenho ideia que o urso diz mais coisas e pode ser a “ursa colmeeira” de que já aqui deixei posts.
Mas ele também usou mais vezes o urso como forma de sátira política.

Este melro é um mundo.
Agora o teu “arcano sem número” é que acho que “fica a matar”, passe o pleonasmo.
ehehe
É que nunca li isso em parte alguma, mas faz muito sentido numa alusão às vanitas.
É possível que já alguém tenha falado nisto como uma vanitas, mas eu não sei. Na bibliografia que deixei não vem. E o Ronald Paulson é um grande entendido no Hogarth.

beijocas

estive a ver outra vez: mas então os que chamas limpa-chaminés não são negros_escravos ou derivados simbólicos?

z

em relação aos jacobinos (citados por aj)… não esquecer que o jacobinismo grassou nos países que se mantiveram fiéis à Igreja de Roma (lá pelo séc 16), enquanto o liberalismo se propagou vingou entre os que dela se emanciparam (protestantes etc)…..

(relendo-te…

– por acaso não simpatizo com maçons… -)

ahahahaha
Não me atrapalhes.

Eu não sei como é que dá aqueles resultados

“:O)))))

bem, convenhamos que com isto, com um passaporte russo e uma pontuação de 73 , não há jacobino que arrisque a aproximar-se! 🙂

eheh O Hogarth é delicioso, CCz.
Eu não contei a história todo do quadro porque já foi contada e, para o caso, apenas me interessava confrontar os indícios de “vanitas”.

Mas, creio que um dos links que deixei conta. Os que estão a entrar no outro prédio são os wighs que perderam as eleições. E vão todos repimpados para não darem parte fraca da derrota. A casa está incompleta, pensa-se que por ser sinal de apoio judaico, já que os judeus não completavam as casas.

O rapaz que faz chichi para o macaco é o tal limpa-chaminés que depois, na gravura que o Hogarth fez a seguir ao quadro (ele fazia quase sempre as duas coisas) está a levar um tiro, porque foi a tal disputa que tiveram e um dos limpa-chaminés, apoiante dos tories morreu mesmo.

Mas ele é assim em tudo. Fazia “banda-desenhada” em pintura de grande qualidade e, ainda por cima, também teve actividades políticas. Grande parte são sátiras e ajustas de contas com críticos. E chegou a acrescentar detalhes em gravuras passados 30 anos. A ver se para a semana tenho tempo para falar de um deles.

E este Goya…

http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2008/07/sono-ou-sonho.html

o pesadelo da razão?

Tive que voltar para apreciar mais em pormenor…
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quem serão, o que representam os 3 indivíduos que chegam com as bandejas(?)
.
e um dos negros não está a urinar para cima do macaco?
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Se o autor fosse vivo, o quadro daria para um bom serão em grupo, para adivinhar as mensagens e interpretá-las.

Henrique, seu sortudo.
Beijocas

É a data do quadro. Ele fez a série, juntamente com as gravuras, durante a própria campanha e o este é o último. Coincidências curiosas.

Mas falta decifrar muita coisa. O Hogarth é um pocinho de mistérios. Vale a pena ler o que o Ronald Paulson tem investigado. Ainda que, neste caso, nem se tenha detido na simbologia da caveira e na invocação da luz divina do sistema de Newton.

A ver se para a semana “boto” o último, apenas com umas hipóteses paralelas e que trata também da morte, da loucura, da melancolia. Se tivesse tempo ainda o confrontava com o Goya.

Mas não vai ser para já.

Postal a merecer digestão.
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Quanto ao relógio de sol e à inscrição – Será que a data de 1755 é significativa?

Terramoto de Lisboa e todas as ideias que daí decorreram sobre a morte e sobre o mal?

Passado um período de nojo com a net, aqui estou para o prazer de te ler. E que prazer! Curiosamente também a pintura foi, nos últimos dias, o meu objecto de atenção.Rembrandt, Vermeer, Van Gogh, os verdadeiramente grandes que vi em Amsterdão. Beijos

Obrigada, Beijocas Frioleiras.

Grande parte disto é divulgação. O que me interessou foi confrontar épocas, porque a tal Razão das Luzes começa por estas bandas da Inglaterra, bem antes da Revolução Francesa.

E vai sempre tudo ter a Locke, ao Newton divinizado e às confrarias maçónicas.

gostei muito…. deste “post”…

(a reler…)

belo e iluminador, Zazie. Amanhã leio outra vez, parabéns.

beijos

z

Já lá vou ver

Estou em cima outra vez… :):):):):):):)

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