Cerca dos finais do século XII, várias cidades espanholas, e Sevilha foi um caso notável, testemunharam as actividades de irmandades místicas de Muçulmanos. Tais gentes, conhecidas por Sufis, eram «santos pedintes» que deambulavam em grupos através das ruas e praças, vestindo mantas de retalhos de várias cores. Entre eles os noviços eram treinados na humilhação e auto-abnegação; tinham de se vestir com farrapos, não levantar os olhos do chão e comer coisas intragáveis; e deviam obedecer cegamente ao chefe do grupo. Mas logo que concluíam o seu noviciado, os Sufis penetravam numa esfera de liberdade total. Desprezando a cultura livresca e as subtilezas teológicas, regozijavam-se de um conhecimento directo de Deus- de facto, eles sentiam-se ligados à essência divina na mais íntima união: Isto, por sua vez, libertava-os de todas as restrições. Qualquer impulso era assumido como um comando divino; umas vezes rodeavam-se de posses mundanas, outras viviam na luxúria- e ainda de outras vezes podiam mentir, roubar, ou fornicar sem rebates de consciência. Pois na medida em que por dentro a alma estava integralmente absolvida por Deus, os actos exteriores não entravam em conta.

Norman Cohn, Na Senda do Milénio...