Anarco-comunismo na Boémia.

Tal como os extremistas taboritas o compreendiam, o Milénio caracterizava-se por um retorno da perdida ordem anarco-comunista. Tributos, impostos e rendas, tudo seria abolido, assim como propriedades privadas de todas as espécies. Estava destinado a não haver autoridade humana de qualquer espécie: «Todos devem viver juntos como irmãos, nenhum deve estar sujeito a outro»O Senhor reinará, e o Reino será dado de mão aberta às pessoas da Terra» E na medida em que o Milénio iria ser uma sociedade sem classes, esperava-se então que os massacres preparatórios assumissem a forma de uma guerra de classe contra «os grandes»- uma guerra com um assalto final contra esse velho aliado do Anticristo, o Homem-Rico. Eram os Taboristas muito explícitos acerca da questão: «Todos os senhores nobres e cavaleiros devem ser derrubados e exterminados nas florestas como os fora-da-lei» Porém, tal como tinha sido o caso noutras terras em séculos anteriores, era sobretudo o rico cidadão, o comerciante ou o senhor ausente das suas terras, bem mais que o senhor feudal do velho estilo, que era considerado como o tal Homem-Rico. E era este Homem-Rico urbano que os Taboristas mais desejosos estavam de eliminar, assim como eram as cidades que eles se propunham queimar e arrasar, de maneira que nenhum crente pudesse entrar ali novamente. Praga, o domínio dos apoiantes de Segismundo, era objecto de uma especial aversão; e ao citarem a cidade da Babilónia os Taboritas mostravam bastante claramente qual o significado de que se revestia o seu iminente destino. Pois Babilónia, terra natal do Anticristo e da demoníaca opositora de Jersusalém, era tradicionalmente considerada como a personificação da Luxuria e da Avaritia; e é assim que o Apocalipse prediz a sua queda.

Norman Cohn, Na Senda do Milénio. Milenaristas, Revolucionários e Anarquistas Místicos na Idade Média (1957), Editorial Presença, 1981.