Fala-se agora muito em Timor e na crise da sua “democracia” e fica a pergunta: mas quando é que houve eleições legislativas em Timor?

(Não vou retomar agora um assunto que não me surpreende. Tudo o que tinha a dizer já o fiz há tempos, aquando da famigerada “intervenção da Igreja”. Basta consultar as caixinhas de comentários de inícios de Maio do ano passado, no Barnabé ou no Blasfémias)

A esta pergunta é que nunca me responderam.

[um deslinque por deslize todos os temos. Aproveita-se a ocasião para repor aqui uma porcalhada com dupla dedicatória-
Aos nossos
porquinhos de estimação e ao gaiteiro (salvo seja) do Luís Rei ,a quem há três anos foi oferecido o bácoro e a sanfona].


Por tradição ancestral a gaita-de-foles sempre foi associada à provocação sexual. O tema populariza-se na Idade Média na literatura e na iconografia jocosa.

O termo “gaiteirice” prende-se com estes costumes e vemo-lo aplicado à luxúria desbocada dos loucos, dos velhos e das velhas afoitos a críticas e penitenciais da Igreja, por força da insistência no gozo.

De um modo mais descomprometido, os tocadores de gaita-de-foles fazem parte das festas do riso saudável e desbragado das patuscadas populares, acompanhadas de bebida e muita outra diversão.

Gil Vicente e Camões referem-no a propósito dos tempos soturnos trazidos pela Inquisição. A “apagada e vil tristeza” que já aparecera no Triunfo do Inverno vicentino:

Em Portugal vi eu já
Em cada casa pandeiro
E gaita em cada palheiro;
E de vinte anos a cá
Não há hi gaita nem gaiteiro,
A cada porta hum terreiro,
Cada aldeia dez folias,
Cada casa atabaqueiro;
E agora Jeremias
hé nosso tamborileiro.
Só em Barcarena havia
tambor em cada moinho,
E no mais triste ratinho
S’enxergava uma alegria
(Gil Vicente, Triunfo do Inverno).

Amores e calores fora de época parece que sempre atacaram em todas as épocas. Gil Vicente não os poupou nas suas sátiras:

MoçaJá perto sois de morrer. Donde nasce esta sandice que, quanto mais na velhice, amais os velhos viver? E mais querida, quando estais mais de partida, é a vida que deixais?
VelhoTanto sois mais homicida, que, quando amo mais a vida, ma tirais. Porque meu tempo d’agora vai vinte anos dos passados; pois os moços namorados a mocidade os escora. Mas um velho, em idade de conselho, de menina namorado… Oh minha alma e meu espelho!
Moça “Oh miolo de coelho mal assado! (…)

A badalhoquice da velha era ainda mais caricata, estando na base da inversão da Tempo e da Ordem nas festas do solstício de Verão, em que o tema da Serração da Velha se inscreve.

Velho Estas velhas são pecados, Santa Maria vai com a praga! Quanto mais homem as afaga, tanto mais são endiabradas!
Gil Vicente,O Velho da Horta

No Triunfo do Inverno, tragicomédia concebida como uma assoada e festa de Maio*, a velha Brásia Caiada, faz um percurso pela serra, suportando as intempéries invernais, porque deseja casar-

com um mancebo solteiro
filho de priol d’Aveiro
e eu sua namorada
e o moço sapateiro
Porque diz o exemplo antigo
quando te dão o porquinho
vai logo có baracinho.
Ora eu cá assi o digo.
E mais quem inda s’atreve
com’eu que o posso fazer.
Que assi case eu com prazer
que vou cada vez mais leve.
-Vingando-se da morte do Inverno, a velha do charivari, acaba por desaparecer na Natureza.

retábulo Sé Velha CoimbraNo bestiário medieval o porco ou javardo, significa literalmente essa gula ou luxúria depravada. Já Santo Isidoro de Sevilha o recordava nas Etimologias: “os porcos são imundos porque se revolvem e sujam na terra à procura de alimentos”. Na obra Hortus Sanitatis (1485), inspirada em Aristóteles, Jehann von Cube desenvolve a ideia da associação do porco à luxúria, referindo a precocidade sexual do animal que aos oito meses já é capaz de copular.

Os exemplários acrescentam os mesmos atributos aos macacos beberrões e a todo o tipo de gula e prazeres carnais. Representam-se com este sentido em cortejos festivos, tocando instrumentos musicais, a par de sátiros, centauros e outras figuras humanas bestializadas e em despique com os homens selvagens.
Nestas gaiteirices, a gaita-de-foles parece ter esse específico significado sexual. Arcipreste de Talavera, na recolha de refrães que incluiu no El Corbacho (1438), a propósito de frades e seculares dados a assediar a mulher do próximo, utiliza a frase: “dignos por us fechos de tañer la cornamusa”

Parece que a música popular e profana não se fazia apenas ouvir nas festarolas e touradas nos adros das igrejas. A confecção simples e pouco dispendiosa deste instrumento musical, levava a que muitas paróquias usassem a gaita no lugar do órgão.

Oviedo

O Louco ou bufão, termo de origem toscana, significava o chocalheiro, o bobo por cuja boca saem os disparates, venenos, malícias e todo o tipo de licenciosidades que servem para entreter os ignorantes e indiscretos, como foram definidos por Sebastián de Covarrubias no século XVII.
O bufo que diz coisas vãs e cujas palavras leva o vento representa também as cabeças aéreas, a razão adormecida. Este personagem domina grande parte da cultura satírica medieval, prolonga-se nos tempos modernos, numa confluência entre o erudito e o popular.
Da Nave dos Loucos de Sebastian Brandt ao Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdão, passando pelas trovas populares e teatro vicentino, o louco é o antecessor do palhaço pobre dos tempos modernos.
O efeito escatológico das suas provocações tanto actua nas festas populares, feiras e vagabundagens de saltimbanco, como o promove a bobo de corte em meados do século XIV.
Nas cidades multiplicavam-se as companhias de loucos com ordenanças e cerimónias burlescas próprias e as Festas de Loucos, dos Inocentes e do Asno servem também como momento de iconoclastia colectiva de que nos restam testemunhos iconográficos.

Na descrição de uma festa de loucos decorrida em Ecija diz-se mesmo que no meio do espectáculo se ouvia tambores e a “gaita dos loucos”
(ver Caro Baroja, El Carnaval (Análisis histórico-cultural), Madrid, 1965, p. 326.)

Algumas representações do toque da gaita-de-foles aproximam-se de figuras metamorfoseadas (especialmente monges) cujos narizes se prolongam nos tubos da gaita ou nas flautas imprimindo-lhes um nítido carácter fálico. Noutros casos a associação sexual é mais explícita, mostrando claramente cenas de sexo contra natura ao lado dos porcos, macacos e coelhos gaiteiros.

Os tempos passam, os gostos mudam mas porcalhadas e gaiteirices não desapareceram nas brincadeiras pos-modernas. Aqui fica um grande porcalhão mais recente.

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*segundo Maria José Palla, A Palavra e a Imagem. Ensaios sobre Gil Vicente e a Pintura Qinhentista, Editorial Estampa, Lisboa, 1996.

consultar também:
site dedicado a gaitas-de-foles

imagens:
– Les Très Riches Heures du Duc de Bérry, 1413.
-Pieter Brueghel o Velho, Dança de camponeses, 1556
– Pieter Brueghel o Jovem, interior de festa de casamento (detalhe), c. 1620
– Pieter Brueghel o Jovem, velho gaiteiro
– retábulo da Sé Velha de Coimbra, provocação sexual entre homem selvagem e javardo a tocar gaita
– campónio a tocar gaita, gárgula da catedral de Plasencia
porcos músicos- cadeiral de Santa Cruz de Coimbra;
-javardos a copularem ao som da gaita, cadeiral de Oviedo
-gravura da Reforma- “Papa doutor em Teologia e Mestre da Fé”, Lucas Cranach, meados do século XVI
-Erhard Schoen O demónio a tocar gaita de foles c. 1530
– Sebastian Brandt, A Nave dos Loucos, louco gaiteiro, gravura de Dürer.
cena de felatio entre meninos, portal da Sé de Lamego
-menino a masturbar-se ao lado de coelho gaiteiro, capitel da igreja conventual de Vilar de Frades

Jeff Koons, 1988, porquinhos e S. João Baptista

nota: acrescentada a gravura satírica do Papa de Lucas Cranach, graças ao BibliOdissey

[para o merdinhas ]

O “avacalhamento” não é exclusivo das que estão em parada lisboeta, tal como a “cabrice” não é dos capríneos. Já S. Boaventura desconfiava da tendência viciosa na espécie dos ursos e não devia estar enganado.

A ursa colmeeira era a figura escolhida, sempre que se queria referir o gosto de quem saboreou luxúria ou dos que ficaram a chupar os dedos.

Ursos e ursas que aparecem em gravuras ou na marginalia decorativa medieval podem estar no lugar desses defeitos e reviravoltas dos prazeres. A Gula fácil e predadora do urso que vai à colmeia e é atacado por tantas abelhas, que não lhe chegam os dedos para o doce, como contava Leonardo da Vinci no Bestiário e que o faz encarnar a vanidade da ira.
Noutros casos é recordado nas trovas satíricas como exemplo do prazer perdido, quando o desejo é muito, mas a mão não lhe chega.

Na versão mais moralista, de que fala Sebastian Brant na Nave dos Loucos, dirige-se a «Quem no tempo alegre do verão descuida o trabalho, acabará no inverno como os ursos a chupar os seus próprios dedos”

Pode também ser má sorte daqueles que não deviam cobiçar o que não lhes foi destinado, como o clérigo enamorado da Farsa dos Físicos de Gil Vicente.

Moço para o clérigo –

«O mestre cousa he sabida,
se vos lembra o entendedor,
Que amar quem vos não quer
he falta d’amor perdido

«Triste ma hora naci
que vio ora elle em mi
O Padre lambe ll’o dedo
Que s’alvoroçou assi?»

Passado um século, ainda Frei António das Chagas recordava “o mel e o cortiço”, num misto de vanglória varonil e desconfiança por tanta facilidade que pode ser “sol de pouca dura”

(…)Se para o vosso cortiço
quereis enxame, eu o tenho,
com tão boa abelha mestra
que não sofre zângãos dentro:
E se a crestar essa colmeia
quereis vir, não tenhais medo
deste furão que é mais doce
que o próprio mel desse termo:
Porém, amiga, ide embora,
que eu de tal favor receio
que quem favo hoje me manda
que à fava me mande cedo.

Nem todo o que sabe bem é prazer negado. A colmeeira também podia ser a ursa bem satisfeita que depois de saboreado o cortiço, ainda lambe os dedos com vontade de mais.
Como a Constança das picardias satíricas de Ruy Moniz:

(…)a que o gosta,
não lhe pesa nada
de ser cavalgada
de ilharga ou de costas.
Passara dos doze,
o mais não é cedo,
se amor vos escoze
perde-lhe o medo.

Guardar de esperança
muito prolongada,
e seja lembrada
por nome Constança.
Que lambeu o dedo
depois de gostar,
e foi-se finar,
do que vos hei medo.

Certo é que não há gozo mais apetecido que o proibido. Muitas colmeeiras “entregavam-se” a estas doçuras em pleno coro das igrejas. A nossa ursa ainda hoje anda nesses desvarios lá pelas bandas da sé do Funchal

ver:
Sebastian Brant, Stultifera Navis (Basileia, 1497)
Frei António das CHAGAS, 1631-1682, Portugal , in Poesia Portuguesa Erótica e Satírica
Selecção, prefácio e notas de Natália Correia, Antígona/frenesi, Lisboa, 1999
Rui MONIZ, séc.XV, in Cancioneiro Geral e “Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, ibidem.
Gil VICENTE, “Farsa dos Físicos”, Obras completas de Gil Vicente, Lisboa, Sá da Costa, tomo VI, 1955, pp.102-103.
Leonardo da VINCI, Bestiário, fábulas e outros escritos, [H, 6r], Lisboa, Assírio e Alvim, 1995, p. 16.

Imagens: -“Bíblia do Urso”, ANTT (assim denominada em virtude da marca de Impressor da Matias Apianus) ed. Basileia, 1569.
-“Imprevidência”- Nave dos Loucos– gravura atribuída a Albrecht Dürer
-cadeiral da igreja da Natividade de Maria, kempen, séc. XV
-cadeiral da Sé do Funchal, c.1517.

Em resposta ao cbs quando depois de tecer palavras simpáticas a meu respeito, desabafou: “só não percebo como consegues gostar do VPV…”

Pois aí está uma pergunta que também nunca entendo a que se refere. Não creio que se reporte ao VPV historiador porque esse (peço desculpa pela generalização) ninguém lê.
Imagino que a coisa também não tenha a ver com ideologias, pelo que resta outro sentido qualquer que para mim se resume a uma simples fatalidade- gosto por ser portuguesa. Num país de lustrosos saltitantes, sempre prontos para os salamaleques ao Poder e por arrecadar à custa dele, quem é que não sente necessidade de um bom bobo-da-corte?

Aqui fica um exemplo do que tudo isso significa. O José sintetizou-o em poucas palavras: “Como de costume, VPV parte a loiça das redomas ministeriais e escaqueira estilos de pomposidade culturística”.

Quantos mais temos, capazes de rejeitar estes convites bacocos e partir a loiça com tanta graça?