Tenho para mim que a demonstração de fairplay também é sintoma de alma magnânima. Neste caso a série duracell teve a vantagem de fazer justiça a outro “tom” que glorifica o prazer de desbaratar- o do nonsense dos postes recicláveis do nosso maradona com minúscula.

E por falar em coelhos, aqui fica um cadeau de outro muito cá do Cocanha-

O número 9 da “aguasfurtadas”, Revista de Literatura, Música e Artes Visuais, chega às livrarias durante este mês de Maio.
E estará também disponível através de pedidos directos para jup@jup.pt. Este número 9 inclui poemas originais de Inês Lourenço, Tiago Gomes, Rui Lage, Isabel Fernandes Pinto, Joaquim Cardoso Dias e António Pedro Ribeiro. A primeira tradução para português do magnífico poema em dez partes “A Fenomenologia da Ira”, de Adrienne Rich, da responsabilidade de Margarida Vale de Gato, uma breve recolha de textos do autor argentino Marcelo Rizzi, numa tradução de José Mário Silva, e ainda a primeira tradução de “Uma Novela Não-Escrita”, de Virgínia Woolf, por Valério Romão. Contos inéditos de Filipe Guerra, Joana Gusmão e ZM. E uma extraordinária peça de teatro de Nuno F. Santos intitulada “Os Condenados”, e, por fim, um ensaio de Miguel Miranda sobre o riso. Mas há mais.

Nas artes visuais, a “aguasfurtadas” 9 inclui trabalhos de Rui Lima e Sérgio Martins, Jonas Nobre, Francisco Queimadela, Emílio Remelhe, João Marrucho, Teresa Roldão, José Peneda e Samuel Silva, Júlio Dolbeth, entre outros. E ainda fotografias de Jorge Garcia Pereira,Carlos Manuel, Vasco Gil, Joana Cadima e João Gonçalves.

Finalmente, na área da música, Ana Cancela Pires escreve um ensaio surpreendente sobre John Cage e Carlos Guedes abre uma janela sobre o universo musical na era digital. O CD inclui obras de Alexandre Delgado, Ruben Andrade, Dimitris Andrikopoulos e do grupo de jazz Espécie de Trio.

Para mais informações, esclarecimentos, opiniões, etc., não hesite em contactar: jup@jup.pt.
Visite ainda o blogue da “aguasfurtadas” e conheça a capa deste número 9 em revista-aguasfuratadas

AQUELE QUE NÃO SABIA UMA PALAVRA HUMANA A NÃO SER: “HÁ-HÁ”
Para Christian Beck

“Hei, tu aí, disse gravemente Girimon; no que te diz respeito, tirar-te-ei a tua túnica para fazer uma vela de tempestade: as tuas pernas para mastros; os teus braços para varas; o teu corpo para casco, e f… à água com seis polegadas de chapa no ventre para fazer de lastro… E como, quando fores um navio, será a tua cabeça gorda o que servirá de figura de proa do navio, então baptizar-te-ei de: o malandro b…”
Eugène Sue, A Salamandra (o pequeno jogo dos diabos)

Bosse-de-Nage era um babuíno, menos cino- que hidrocéfalo, e por conseguinte, menos inteligente que os seus pares. A calosidade vermelha e azul que normalmente ostentam nas nádegas foi, neste caso, deslocada usando um medicamento curioso, por Faustroll para as bochechas; azul ultramarino numa e escarlate noutra, de modo que a sua cara ficasse tricolor.

Não contente com isto, o bom doutor quis ensiná-lo a falar; e se Bosse-de-Nage (assim chamado por causa da dupla saliência das bochechas acima descrita) não estava completamente familiarizado com a língua francesa, ele pronunciava muito correctamente algumas palavras belgas, chamando ao colete salva-vidas pendurado no casco do barco de Faustroll de: “bexiga nadadora com inscrição escrita,” mas mais frequentemente ele proferia um monossílabo tautológico:

“Há há”, dizia ele em Francês; e não adiantava mais nada.

Esta personagem será muito útil no curso deste livro, em forma de paragem nos intervalos dos discursos excessivamente longos; como é usado por Victor Hugo.

É tudo?
-Não, escutem ainda:

E Platão, em diversas passagens:

“-Assim faleis a verdade, retorquiu ele.
-É verdade.
-É mesmo verdade.
-É claro, disse, mesmo para um homem cego.
-É óbvio.
-É um facto óbvio.
-É mesmo assim.
-Assim parece.
-Também sou da mesma opinião.
-De facto, parece na realidade que é verdadeiro.
-É mesmo assim, retorquiu ele.
-Também sou dessa percepção.
-Absolutamente, ele retorquiu.
-Assim se fala sabiamente.
-Bem.
-Certamente, claro.
-Eu recordo.
-Sim.
-É como diz.
-Penso que sim, e de forma peremptória.
-Eu concordo.
-Muito bem.
-Isto é sem dúvida correcto, ele retorquiu.
-Isso é verdade, retorquiu ele.
-Isso é verdadeiramente necessário.
-Por todos os meios.
-Por todos os meios verdadeiramente.
-De todo o modo por todos os meios.
-Nós admitimos.
-Isso é verdadeiramente necessário.
-Muito.
-Mesmo muito de facto.
-Isso é lógico, de verdade.
-Como pode ser isso?
-Como pode ser de outra maneira?
-Então como?
-Como?
-Assim se fala verdade.
-O verdadeiro que isso o parece ser.”

Segue a narrativa de René-Isidore Panmuphle.

ALFRED JARRY – “GESTOS E OPINIÕES DO DR. FAUSTROLL, PATAFÍSICO, ROMANCE NEO CIENTÍFICO” [1898-publicado em 1911]

e a perícia dos extraterrestres do gravador do Rei das duas Sicílias
invenção de habitante da lua: “Una nuova macchina per fendere da Capo a Coda le fiere”

Filippo Morghen(1730-1807) Racolta delle cose più notabili veduta dal cavaliere Wilde Scull, e dal sigr: de la Hire nel lor famoso viaggio dalla terra alla Luna … gravuras, c. 1764-72 (1ªed.)

Tem havido algum alarido no Cocanha, à custa do crocodilo, ali mais abaixo. Não há nada de especial no caso. Os crocodilos sempre se usaram assim: pendurados de vigas do tecto.
O motivo também não parece tão complicado. Desde o Egipto que o deus Sobek tinha enormes poderes, incluindo o benefício da fertilidade feminina por interposto consorte.
Por outro lado, dizia-se que os excrementos do animal tanto podiam ser usados como contraceptivo, como cosmética que restituía a juventude perdida. É claro que a forma de os usar não era propriamente a mesma, mas ainda assim parece que não faltaram velhas e novas para testar os efeitos.

Yaga Baba prepara-se para combater o crocodilo! com um pilão e um macaco e por baixo de um arbusto tem um copo de vinho

gravura popular russa [Satirical Lubok]


Na Idade Média tendia-se a confundi-los com os dragões, que apesar de esquivos até eram animais mais importantes e mencionados na Bíblia.
Por esse motivo e outros possivelmente menos confessáveis (como o mero gosto de mostrar bizarrias) por efeito das navegações, passou a ser mais ou menos moda pendurá-los do tecto das Igrejas.
Por cá também os houve, nesta posição que tanto estranhou alguns leitores do Cocanha e um dia destes falo do assunto, apresentando outras provas.
Adiante-se que o viajante alemão Jerónimo Munzer os localizou no coro do mosteiro da Santíssima Trindade e dos frades menores, frente ao Limoeiro, quando visitou a corte de D. João II, no ano de 1495.

Por agora, fica aqui um dos bicharocos, colocado em meados de quinhentos em plena nave do Santuário de Santa Maria de Le Grazie, na Itália.
A tendência para a laicização crocodiliana também não se fez esperar muito. Das igrejas transitam directamente para os gabinetes de curiosidades da ciência. Com a mudança, o status também se vai. Nas igrejas eram tomados pelo Dragão do Apocalipse ou por ex-votos e não faltava quem lhes fizesse preces. Nos gabinetes, em passando a moda das transmutações alquimistas, acabam os dias como velhos bibelôs empalhados.

É claro que, por portas travessas, também houve excepções…
E mais não digo…

gravura-Ferrante Imperato (1550-1625) Dell’historia naturale . . . Napoles: C. Vitale, 1599

consultar: Jerónimo Munzer, Viaje por Espana y Portugal, 1494-1495, Madrid, Colección Almenara, s.d.