“Há três espécies de Portugal dentro do mesmo Portugal; ou, se se prefere, há três espécies de português. Um começou com a nacionalidade: é o português típico, que forma o fundo da nação e o da sua expansão numérica, trabalhando obscura e modestamente em Portugal e por toda a parte de todas as partes do Mundo. Este português encontra-se, desde 1578, divorciado de todos os governos e abandonado por todos. Existe porque existe, e é por isso que a nação existe também. Outro é o português que o não é. Começou com a invasão mental estrangeira, que data, com verdade possível, do tempo do Marquês de Pombal. Esta invasão agravou-se com o Constitucionalismo, e tornou-se completa com a República. Este português (que é o que forma grande parte das classes médias superiores, certa parte do povo e quase toda a gente das classes dirigentes) é o que governa o país. Está completamente divorciado do país que governa. É, por sua vontade, parisiense e moderno. Contra sua vontade, é estúpido. Há um terceiro português, que começa a existir quando Portugal, por alturas d’el-Rei D. Dinis, começou, de nação, a esboçar-se Império. Esse português fez as descobertas, criou a civilização transoceânica, e depois foi-se embora.”

Fernando Pessoa

Apesar do exemplo anterior, a Monarchia Médica Lusitana não estava assim tão desactualizada para a época. A dada altura explica a vertigem como tratando-se de uma afectação que faz virar a cabeça de cima abaixo, acusa falta de visão e noção das coisas e que mais não é que um sintoma de “imaginativa depravata”.

Quem nunca se apercebeu disso foi a Madeleine…

Madeleine: There is something I must do, there is something I must do
Scottie: There is nothing you must do. There is nothing you must do

Regressando aos nossos monstrinhos de estimação, sejam medievais ou contemporâneos, um dos aspectos que maior curiosidade desperta consiste no volt de face rapidamente operado quando com “eles” somos confrontados.
O lendário Guillaume de Rubrouck já havia proferido a famosa frase: tamquam monstra, ao descrever a reacção dos tártaros perante a “monstruosidade facial” dos europeus que para lá foram no intuito dos converter. Se aos olhos do Outro, até nós o podemos ser, porque não transformar o desconhecido em mais um aliado ou, ainda melhor – num fiel súbdito?

Teoricamente a questão transforma-se numa nova retórica da pedagogia cristã.
Na Gesta Romanorum, de meados do século XIII, as taras destes prodígios de uma natureza exorbitada, tornam-se sintomas de e expressão de virtudes impensáveis.
Os cinocéfalos, por exemplo, se têm cabeça de cão e ladram em vez de falar, devem ser comparados aos padres que também são obrigados às suas rigorosas penitências. Os panóteos possuem grandes orelhas porque gostam de ouvir a palavra divina. Os monóculos da Índia apresentam um único olho na testa mas este vale por muitos outros – pois é o olho da razão- e assim, sujeitos à tirania da sensatez, o único défice que os aflige é a falta de livre-arbítrio.

Os exemplos seguem-se, percorrendo todas as raças fantásticas catalogadas, incluindo também algumas novidades como era o caso dos seres que tinham uma boquinha tão pequena que só se podiam alimentar por uma palhinha. Os infelizes viviam praticamente do ar, ou melhor, do perfume florífero e, quais flores de estufa, também iam desta para melhor ao menor cheiro nauseabundo que se acercasse dos narizes. Tão estapafúrdia deficiência não impediu que, de imediato, a comparassem à grande virtude da castidade e da parcimónia.

Como se não bastasse converter as marcas orgânicas da disformidade em novos indícios morais, chega-se ao ponto de fazer representar as raças fantásticas em respeitosa e cristã reza conjunta.

No final da Idade Média, ao sentimento de piedade, junta-se o proselitismo imperial e a necessidade de encontrar aliados na luta contra a ameaça turca. O renascimento do mítico Prestes João não foi mera efabulação de corte e o certo é que as expedições se fizeram acreditando-se “que se acreditava” na fábula, ou sem que este detalhe interferisse na mistura do pensamento escolástico com o novo pragmatismo político.
Não foi apenas a dita carta a ser reabilitada mas muito provavelmente várias, de acordo com a tradição premonitória milenarista dos escritos que choviam dos céus. Desta vez surgem como antecipação milagrosa de boa-nova e o certo é que por cá também “choveu”uma delas.

Neste caso a missiva de enigmática proveniência “bizantina” foi coligida por comendador do país vizinho e, por vias desconhecidas, acabou por cá vir parar.
Pois a tal carta manuscrita é, nem mais nem menos, enviada pelas raças fantásticas ao rei católico de Espanha como resposta a anterior troca de correspondência entre estes povos.

Apresentam-se então os depoimentos fantásticos, iniciados pela rainha das “gentis amazonas da Ásia” seguindo-se os monóculos, ciápodes e blémios- tudo “gente de humana razão”- como garante o comentário, a oferecerem os seus préstimos ao monarca e a toda a Cristandade!
O texto dos monópodes é particularmente saboroso. Imitando Roubrouk, também eles reconhecem que a visita das naus dos estrangeiros foi obra que lhes pareceu totalmente maravilhosa, como vinda dos céus, em particular pelo facto de conseguirem sustentar-se em dois pés e não apenas num.
Pelo meio, estes habitantes dos confins do Mundo, são descritos nas suas anomalias como seres bem mais puros e proveitosos que os que por cá habitavam. Seja por lhes faltar cabeça mas terem os olhos mais perto do coração ou pelo único que possuem estar mais perto da razão, a verdade é que tudo o que carecia no corpo era compensado pela racionalidade do espírito e a mais pura disponibilidade anímica nas intenções do contacto.
Não sabemos se o monarca aproveitou os serviços ou se foi à custa deles que em Lepanto “outros” mais reactivos acabaram vencidos, mas o certo é que não bastou a experimentalidade das Descobertas para lhes colocarem fim.

Num incrível tratado médico português do século XVIII – Portugal Médico ou Monarchia Medico-Lusitana– da autoria de Luís Brás de Abreu, o autor ainda refere a existência destas raças num capítulo dedicado às diferenças do Homem.
Entre uma série de citações clássicas, aparece uma descrição coeva, sustentada na antiguidade do testemunho desse símbole de tolerância que deu pelo nome de Torquemada: a existência de uma espécie de povos que nascem com duas línguas. Graças à dita particularidade anatómica, estas raças tinham conseguido resolver o grande problema de entendimento do verbo: com uma das línguas faziam as perguntas e com a outra davam a si próprios as respostas.

E assim se conclui que foi preciso esperar pela época das luzes, para que um médico tuga exemplificasse numa raça o que sempre se havia feito com todas- o segredo da relação consiste apenas na invenção de uma prolixa fala autista…

ver: Claude Kappler, monstres, démons et nerveilles à la fin du Moyen Age, Payot, Paris,1980

Pois é, foi uma boa merda foi… e não precisas disso para nada, ó meu acelerado mental!
Que é isso de dialéctica de ricos e pobres, senhores e escravos nos nossos tempos?
Como se sabe, Senhores existiram na Idade Média, e eram todos servus de Cristo, a começar pelo Papa e à sua imagem. E a supremacia do Senhor media-se pela capacidade de oferecer o corpo à honra, a alma a Deus e desbaratar o vil metal na taberna.
De seguida veio o deus cifrão e a burguesia (que são a mesma coisa) e trataram de leiloar em hasta pública essas coisas todas.
Não tenhas dúvidas, meu caro, esses supremos servus, dos nossos dias o mais que conseguem fazer é andar todos no alterne.
E depois, nestas coisas de lugares naturais, como dizia não sei quem que não me lembro, se não é dádiva à nascença também não se chega lá à boleia.

e agora passemos a coisas mais importantes…
não de mescalina pré- colombiana

mas mais perto de mistura de ficção científica com
sexy film noir ao som de feira popular

Suk- ia – la máquina de los sueños

“— O sono, caro Chevalley, o sono é que o Sicilianos querem, e eles odiarão sempre a quem quiser despertá-los, nem que seja para lhes trazer os mais belos presentes; e, seja dito aqui entre nós, tenho fortes dúvidas de que o novo regime tenha muitos presentes par nos trazer na bagagem. Todas as manifestações sicilianas são manifestações oníricas; a nossa sensualidade é desejo de olvido, os tiros e as nossas facadas, desejo de morte; desejo de imobilidade voluptuosa, também desejo de morte como a nossa preguiça, os nossos sorvetes de cercefi negra e de canela; o nosso ar meditativo é o nada a querer escrutinar os enigmas do nirvana. Daí provém o poder insolente que entre nós têm certas pessoas, precisamente aquelas que estão meio acordadas, daí o tal famoso atraso de manifestações artísticas e intelectuais sicilianas; as novidades atraem-nos apenas quando são defuntas, incapazes de dar lugar a correntes vitais; daí o incrível fenómeno da formação actual de mitos que seriam veneráveis se fossem autenticamente antigos, mas que não são mais do que sinistras tentativas de nos refugiarmos num passado que nos atrais apenas porque está morto”.


macaco a mamar numa freira, iluminura medieval

François Boucher, Leda e o cisne, 1741

Jeff Koons,
ushering into banality, 1988


William Hogarth, Mary Grey e Lord George Grey,1740

Paula Rego, girl with a dog,1986

Jeff Koons, St. John the Baptist,1988

Para a menina Ana

ouai…ouai…..

On voit le Sacré Cœur…

dangereux mais ont peu voir…

tiens, voila un petit peu…

– C’est quoi le sujet ?

– Les chevaliers-paysans de l’an mil au lac du Paladru

– au lac du… ?

Paladru !

– mais errr… excuse moi, mais il ya a des gents a qui ça intéresse ?

– non. Personne.

-mais pourquoi tu a choisit ce sujet…

-Pour faire parler les cons

Goya, Rainha Maria Luisa (det.) Carlos IV e família real, 1800

Goya, Hasta la Muerte, Caprichos, 1799