Como Dragão tem o dom de escrever o que eu penso, com a vantagem de o fazer com o talento que me falta, aqui fica, na íntegra, esta reposição. Não podia vir mais a propósito.

«A mitomania da virtude conforma uma dupla perversão: sendo, fogosamente, um onanismo, é também, em grau ainda mais compulsivo, uma exibição.
Assim como dantes funcionava, na grande maioria, a toque de religião –entendam como pano de fundo disto o Ocidente, pois ainda hoje funciona dessa maneira nos países arcaizados – doravante, dado que esse território foi ocupado pela teologia da indiferença, transferiu-se para as chamadas “minorias sobreactivas” e “hipersensíveis”: os gays, as feministas, os judeus, os podres de ricos, os novo-místicos, etc. Digamos que o primado da Diferença viceja a partir dum vasto campo de Indiferença. Enquanto o geral se amalgama e uniformiza cada vez mais, numa massa amorfa e abúlica, o especial, o peculiaríssimo eclode na forma angélica de tribos urbanas florescentes – quistos sociais frenéticos e benigníssimos cujo parasitismo fagocrático alastra insaciável sob o perfume anestésico da elitose.
A característica mais gritante destas tribos não é exactamente o apregoar dum simples direito a existir: sempre existiram, com variáveis sucessos, e não passa pela cabeça de ninguém no seu perfeito juízo andar a molestá-los, dizimá-los ou persegui-los (por mim já me contentava que não arriassem as estátuas dos pedestais e trepassem para lá, todos eles, em apoteose, laureados). Como não é apenas um simples direito à normalidade da anormalidade aquilo que reclamam. É, bem acima disso, e para compensação da catalepsia que os rodeia, reclamar a virtude da anormalidade, isto é, da Diferença. Não se trata de serem normais, de serem como os outros, de se integrarem e vulgarizarem no conjunto: trata-se, outrossim, de serem vaidosamente diferentes, exclusivamente distintos, e de essa diferença constituir uma virtude. A tribo é uma vanguarda. Uma acrópole. Um paradigma.
Daí que reajam mal à crítica e sejam imunes ao sentido de humor. Não admitem ser criticados por “atrasados”, por “inferiores”, por “labregos grunhos e orangotangos” que não entendem nem alcançam o seu avanço, a sua sofisticação, a sua modernidade emproada. Crispam com veloz escândalo; melindram-se e ofendem-se ao mínimo reparo; vigiam com ar adunco, beato, inquisidor, de sectarismo feroz em riste e auto-de-fé engatilhado.
Se na realidade as coisas ainda não são como deveriam, na sua cabeça já são. Cumpre à realidade ajustar-se.
»

…………….
Nota: façam o favor de ir até lá, que vem acompanhado de uma bela ilustração.

Isto ficou tudo repetido mas agora não vou apagar.

O que fiquei sem perceber foi esse suposto acordo com o Antónimo. Porque ele não disse que existem minorias atacadas por outras minorias nem que isso era ofuscado com folclore. (folclore aqui até só podia ser interpretado no sentido literário e satírico do Dragão- ele também chama minorias aos podre de ricos). O que o Antónimo disse foi que existem minorias dizimadas em Portugal.

Possivelmente por maiorias. A coisa pareceu-me tão grotesca que lhe perguntei quem eram.

De qualquer forma folclore é a tradução disto em linhas da denúncia e floreados de legislação quando a lei já contemplava casos que pudessem ter este enquadramento.
O resto é patrulhamento do pensamento ou falta de polícia.

rapaz vai lá perguntar isso ao Dragão porque o texto é dele.

Por mim tenho uma ideia. Estas minorias são fabricadas. A lógica que as agrupa tem uma política em comum. Tem lobbies, por exemplo, por estranho que pareça a organização principal destes lobbies até engloba gays com judeus. Algo que há uns tempos atrás se pensaria ser um absoluto disparate.

Porque estas “minorias” são fabricações legais. Atenção, não entra tudo nem a lógica se prende com nº.
O que se torna cretino é a transformação de toda a “minoria” numa vítima virtuosa. Por esse simples facto, ela fica assima dos restantes. É-lhe concedido um poder por uma virtude que nem precisa de provas. Apenas por entrar no tal grupo de “minoria”.

Eu acho isto uma aberração. E ainda o é mais porque depois também se inventou uma outra palavra para os que não são englobados na “minoria”- o ódio- a tradução bacoca do hate inglês por um único sentimento- o mais maligno que pode existir. Tudo o que pode incomodar, ou pensar-se, ou dizer-se acerca das “minorias legais” são manifestações de ódio ou incitamento ao ódio.

Uma sociedade que faz isto é decadente. É mais decadente que uma inquisição, porque essa era virtuosa mas nunca reivindicou o ódio. Pelo contrário. Poucas pessoas são capazes de nutrir ódio por alguém. Diria que praticamente nenhuma pessoa saudável é capaz de nutrir ódio por grupos sociais.

Fazer-se crer nisto, concedendo esta arma a “virtuosas minorias” para as usarem por denúncia (linha da denúncia-online) por processos, por penas, é prova de que anda tudo doente.

«o primado da Diferença viceja a partir dum vasto campo de Indiferença»

Isso é verdade mas porque é verdade sempre. Um objecto de estudo sociológico. Parece-me que se está a fazer uma leitura correcta de um fenómeno reservando-o depois, de forma subentendida, a algumas minorias. Quando é verdade para toda a gente, minoria ou não.

Na minha opinião, a maior parte das manifestações identitárias extremas nascem da ausência de identidade individual. Isso até deve ser verdade desde o Paleolítico Superior.

E, já agora, a melhor identidade é a mais fraca, porque identidade é quase sempre sinónimo de pertença a objectos sociais estáticos e quem não pertence a identidades pertence só a ele próprio, naquele dia.

Se as pessoas fossem coerentes consigo próprias naquilo que é a concepção linear de “si próprio” – um só indivíduo que viaja no tempo – não saíam do lugar, comprometidas que estariam à sua identidade passada…

Quem escreve o que pensa dá muitas vezes consigo, a ler no presente as congeminações pueris de um idiota do passado. Que é o próprio. Ou será que é?

Depois caiem-se em aberrações orwellianas, de formatação identitária…

Se há uma identidade forte que não a do próprio é difícil haver virtude.

Concordo com o Antónimo. Se uma minoria maltrata outra, porquê ofuscarmo-nos com algum folclore da minoria atacada, com truques circences mediáticos e olhar ao lado da origem da violência da minoria atacante?

Mas olha que estive a reler o texto a ver se descobria quais são as tais minorias dizimadas no nossp querido Portugal. E não encontro:

os judeus? anda-se a abater judeus à saída da sinagoga? os paneleiros e as fufas? esses ou estão no poder ou vivem dele. Não há assédio mais rentável que o assédio a fufas e paneleiros. Os novos-ricos? esses estão isentos de fisco.Os podres de ricos? esses até já são Estado.
Tu não me digas que andam para aí a disparar sobre new-ages e iluminados…

Mas o mais cretino é mesmo a semântica. Esta treta toda é tão folclore que nem disfarça que o que dizem é copiado do “americano”. A palavra ódio, por exemplo- é uma tradução bestializada do “hate”.

A partir do momento que tu tens uma única palavra para referir mil e uma coisas diferentes. Que podem ir de meras manifestações de enfado, a gostos pessoais, a embirrações, a brincadeiras, a meras opiniões, a separações naturais, etc. etc, tudo isto traduzido por ódio com direito a entrar na lei como “crime de ódio”, ou “incitamento ao ódio”, feito numa única direcção- a que é ditada pelas minorias virtuosas, tu tens a réplica chapada da Inquisição.
Agora laica e estatal e politicamente correcta, mas pura e simples inquisição. Liderada por anormais, que transformam a sua anormalidade ou proselitismo manhoso, em causa para perseguir os outros e atapetar tudo na denúncia. Na tal socieade que tu também gostas de troçar mas que nunca consegues levar às últimas consequências.

errata: visar

Lê-me esta palhaçada. Profanação de cadáveres, solo sagrado, crime de ódio, anti-semitismo, etc. etc.

Já nem se vai perguntar qual foi o cadáver profanado e porque motivo um cemitério é solo sagrado. Passa-se adiante para não fazer comichões aos lacistas.
Apenas isto- mas então porque é que quando estas merdas acontecem habitualmente nos cemitérios que não são judaicos (e acontecem por hábito e até com notícias no jornal) não se diz que foi uma minoria indu ou católica a profanada?

É que isto para mim resume-se ao que sempre defendi e defendo: tolerância zero com a pequena criminalidade. Para todos, para tudo. Cortar todo o mal pela raiz. Não dar oportunidade a que venha palhaçada ideológica à boleia.

Trabalho de polícia, forte e feio, a começar na puta dos graffitti, passando por assaltos e gangs de comboios. Tudo igual. Sem paninhos quentes que uns são coitadinhos por serem imigrantes e outros são pérfidos por serem de extrema-direita.

o que contam são os actos e a intolerância só deve vizar actos.
Dar-lhes colorido ideológico só pode trazer mais merda.

E o que eu penso é que há quem até a chame. Quem chame a porcaria por ser frouxo no combate à pequena criminalidade.

O resto é folclore, venha de quem vier. Quando se dá honras de estado ao folclore está-se a promovê-lo para qualquer pacote.

Olha, para a boa da tua linha da denúncia, que também é muito abrangente desde que não se toque em certas coisas…

Porque, o que o Dragão diz e se quer meter para baixo do tapete é esta gigantesca verdade: que anormalidade queira ser normal e integrar-se na normalidade, na maior. A própria normalidade já anda assim no estádio anódino do zombie. Não vinha daí diferença nem mal para ninguém.

O problema é a anormalidade querer agora ser mais que a mera normalidade- ter o estatuto de superior virtude.Para depois se arrogar no direito dos autos-de-fé.

Isto sim é que é retrato certeiro dessa palavra da moda “minoria” e do que com ela se quer fazer passar.

Bem, se formos por aí, é verdade. Há minorias molestadas por outras minorias um pouco maiores.

Por exemplo: um puto de 16 anos e mais outro de 22 são presos por molestarem uma minoria morta, com direito a representação de Estado.

Há muitas minorias molestadas pelo mau-gosto de outras minorias com direito a finaciamento, e há minorias que até se dão ao luxo de viver à custa de maiorias que lhes dão o voto.

Podes crer, o que mais há moléstia. Agora se há quem se ponha a jeito e até precise de mártires, aí não se queixe. É ao que anda.

Por mim, até me estou bem nas tintas para cenas de lucro de proselitismos. Mas se as pedem, goza-se e mostra-se o ridículo dos eleitos e novos virtuosos de barraca de feira.

De facto, “o primado da Diferença viceja a partir dum vasto campo de Indiferença. Enquanto o geral se amalgama e uniformiza cada vez mais, numa massa amorfa e abúlica, o especial, o peculiaríssimo eclode” – não o diria assim (e não apenas por diferença de estilo, mas pelo que a forma já contém). Mas isto não acontece por vontade consciente e individual e, muito menos, por “elitismo”. Seria moroso discutir os mecanismos – e pueril, aqui. O que convém negar, com firmeza, é que “não passa pela cabeça de ninguém no seu perfeito juízo andar a molestá-los, dizimá-los ou persegui-los”. Várias minorias, algumas enunciadas no texto, são, de facto, molestadas e/ou dizimadas. E até aqui, no jardinzinho atlântico. À luz disto, é lamentável o enfoque no folclórico da questão.

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