Os inocentes de serviço, os inocentes úteis, não querem ouvir falar de corrupção. Desqualificam os que denunciam a corrupção. Não é de bom tom falar na corrupção. Falar em geral da corrupção é colocar a moral no campo da política,dizem. Quando alguém fala em geral da corrupção, os inocentes de serviço pedem sangue privado. Quando alguém fala em particular os inocentes arrepiam-se: desceu ao estatuto do denunciante, dizem. É um justicialista, um louco paranóide, dizem com o lábio esticado.
Os inocentes úteis de serviço aos corruptos descredibilizam os que falam de corrupção: quem fala de corrupção quer atingir algum objectivo, deve ele próprio ser investigado, está ao serviço dos inimigos políticos do denunciado, etc.
Os inocentes úteis banalizam a corrupção: são todos corruptos, a corrupção é própria das sociedades humanas, corromper e ser corrompido humanum est.
Os inocentes úteis acham que se deve legislar contra a corrupção. Legislar é uma coisa limpa. Aplicar a legislação uma coisa suja, própria da gente de baixo, da que ganha à peça.
Os inocentes úteis acham que a culpa da corrupção não é dos corruptos. É do Estado. Menos Estado menos corrupção.
Os inocentes úteis apontam para os que falam da corrupção.
Enquanto os inocentes úteis desqualificam os que falam da corrupção, os corruptos perseguem-nos, eliminam-nos. Enquanto os inocentes úteis prospera a corrupção.

Luis, no Natureza do Mal

É verdade, até parece a duracel.

Este teu texto é magnífico e tirou-me as palavras da boca. Percebi que também tinha uma pequena tacada ao que o VPV escreveu, com a qual estou igualmente de acordo.

Um abraço para ti também.

Um abraço, Zazie. Isto é que é durar, hem.

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