Três aninhos derivados de um engano técnico, apenas por teimosia de querermos criar um template. Depois da parvoeira feita, arrastando, sem se saber, a pista pelas janelas de comentários, lá tivemos de carregar o blogue às costas.

Assim sendo, e como já vinham mais uns tantos de trás, aqui fica uma reposição repescada do limbo do velho Janela Indiscreta.

Divirtam-se, que o lema da casa é rabelaisiano.
O musaranho e eu, só temos a agradecer as visitas conhecidas e às desconhecidas. O número será sempre um mistério, já que nunca tivemos medidor dessas coisas. Preferimos aquele rodapé taxionómico e ligeiramente inútil, como apraz no reino da Narragónia.

JAVARDINHAS A FIAR

Muito recato e mãos ocupadas sempre foi receita aconselhada a mulher solteira ou casada. Evitava desocupações que só serviam para estimular manhas femininas com os consequentes sarilhos que daí advinham para o sexo oposto. E deles nem filósofos como Aristóteles e Virgílio, escaparam, como já o contámos.

Na Idade Média a mulher casta era representada pela imagem de uma jovem sentada a fiar com a roca e o fuso, seguindo o ditado popular- “a fiar e a tecer ganha a mulher de comer 1.

Era uma casta fiação, mas também “uma seca” como bem se queixava a coquete Isabel, da Farsa “Quem tem Farelos” do Gil Vicente:

“Faz a moça mui mal feita,
corcovada, contrafeita,
de feição de meio anel;
e faz muito mal carão,
e mal costume dolhar.”

E a Inês Pereira que antes quer “asno que a carregue que cavalo que a derrube” também estava disposta a tudo para se ver livre dessas canseiras inúteis, renegando

deste lavrar
E do primeiro que o usou;
Ó diabo que o eu dou,
Que tão mau é d’aturar.

Como tudo tinha o seu oposto, nas constantes psicomaquias medievas, a dedicação das fiadeiras podia ser virada às avessas. Quando se queria apontar a cobardia ou mariquice de um homem, colocava-se-lhe um roca e um fuso na mão, e lá ficava o desgraçado com mais fama que proveito. Pior sucedia quando a fiação se tornava sinónimo de javardice de rameira.

Um ditado da época lembrava este mundo às avessas: “quando a rameira fia, o letrado reza, e o escrivão pergunta quantos são do mês, mal vai a todos três
javardinha de Plasencia
A casta alterna com a porca e, para acentuar a troça, usava-se o bestiário satírico, mostrando-se uma javali atarefada na fiação doméstica como sinónimo de prostituição.
A “javali-fiadeira” aparece na marginália medieva sendo comum a sua representação em cadeirais de coro.
javali fiadeira, cadeiral da sé do Funchal
Por cá existe uma, esculpida numa das misericórdias do cadeiral do Funchal, idêntica a outras como as de Kempen na Alemanha; Ciudad Rodrigo; Toledo ou da igreja de S. Nicolau em Amsterdão, bem como em gárgulas e gravuras da época.

A brincadeira escatológica tem vários paralelos na literatura da época. É representada na imortal tragicomédia, referida no post anterior: La Celestina, escrita por Fernando Rojas, um judeu converso, editada pela primeira vez em 1499 em Burgos. A Celestina é a velha alcoviteira que trata de tecer as tramas dos amores dos jovens, num mundo cínico e cruel onde todos acabam vítimas das suas paixões. No acto III diz a velha alcahueta: “pocas vírgenes, a Dios gracias, has tú visto en esta ciudad que hayan abierto tienda a vender de quien yo no haya sido corredora de su primer hilado “.
Mais adiante, insiste-se na associação entre o fuso e o falo masculino: “con mal está el huso cuando la barba no anda de suso”2.

As aparências iludem – a velha rameira Celestina ou a Ama do Auto da Índia, quando se lembram da roca e do fuso não é em trabalho casto que estão a pensar – “quero fiar e cantar/ segura de o nunca ver” suspirava a abandonada mulher do mercador embarcado desejando que ele não tornasse vivo a Lisboa.

Goya, Album B, fiadeiras no reformatório

Goya conhecia estas histórias todas não se vai esquecer das fiadeiras nas suas gravuras satíricas. No Álbum B, que antecede os Caprichos, assim representa as raparigas de má vida, tonsuradas e encarceradas no reformatório, acrescentando a legenda irónica: San Fernando como hilan!

Goya, depenados
Mais tarde vai representá-las a depenar os “frangos” que se deixam apanhar nas suas teias.

Goya, Maja e Celestina, 1824-25

Picasso, Celestina

Paula Rego, a casa da Celestina, 2000-2001

Quanto às Celestinas, continuaram a ser imortalizadas. Picasso deixou-nos uma tremenda Celestina vesga e, recentemente, até a Paula Rego as retomou.

campónio gaiteiro de Plasencia
Já as javardinhas medievais nunca deixaram de ser vistas com agrado num mundo goliardesco, onde a virtude convivia descontraidamente com o pecado. Ao lado da javali gárgula de Plasencia vê-se um alegre campónio muito entusiasmado a tocar a gaita de foles.
Tocar gaita também era outra música e quem melhor a soprava ao desafio eram os porcos músicos, mas essa é outra história, que a apagada e vil tristeza, de que falava Camões, fez esquecer.
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1- Francisco Roland (F.R.L.I.L.E.L.), Adágios e provérbios, rifãos e anexins da língua portuguesa… compilação de 1841)

2-Isabel MATEO GÓMEZ, Temas profanos en la escultura gótica espagñola. Las sillerias de coro, Madrid, Instituto Diego Velazquez, 1979)

zazie e musaranho coxo

Obrigada, sô Lusitânea.

É verdade, já meteu seu IRS?

“:O))))

Muitos anos a blogar para animar a malta

Olha a Cláudia. Tão querida, beijocas para ti também

saúde a ambos, parabéns!

olha quem ele é. Ainda agora estavas ali ao lado

“;O)
chuac

Ah, já está!

Parabéns, beijocas e dias felizes

z

Beijoquinhas, CCz. Muito obrigada.

Parabéns zazie

Olá Pedro, como é que vais?

Toma lá uma beijoca bem repenicada.

muitíssimos parabéns, zazie. vou assinalar a data lá no cachimbo. bjs

pedro picoito

Dragão- não exageres, um mustão é o teu.
Beijocas (estou-me a lembrar de uma coisa maluca. Ontem devo ter-te obrigado a andar para ali a trabalhar para mim. A publicar aquela treta toda
ahahaha
Por menos, eu e o professor Denzil Dexter já fomos corridos de um
ehehe
………..
Luís, que amor, já lá fui buscá-la. Foi uma boa pontaria a sua, caçou-a em cheio.
Beijoquinhas
…………..
Caro Despastor- muito obrigada, e uma beijoca. Não há nada como crentes de esguelha
“:O)))
…………
CC…

Nem queria acreditar. És mesmo tu, meu grande malandro. C’um caraças, fico muito contente por te apanhar aqui.
E não te esqueças de largar à porta um docinho de papos de anjo. Que eu bem sei o que v.s andam a fazer lá às escondidas.
“:OP
Uma grande beijoca

Parabéns, zazie.
:*

os meus parabéns para o seu Cocanha; longa vida, com ou em guedelhudas agachadas!

beijo, antº

Muitos parabéns.

No meu blogue está uma “prendinha” para ti e para o Masuranho coxo.

Este blogue é um must!…

Muitos parabéns, cachopa!
Uma beijoca para ti e um abraço ao Musaranho.

E venham mais trinta e três!

:O))

Olá sô Mário_Retorta. Aquele estaminé está tão bonito.

muitas beijocas

…………….
Paulo,
beijoquitas para ti também.Isto tem piada porque quase coincide com o aniversário do musaranho. O malandro é que é muito tímido e nunca gosta de falar nisso

“;O)

Querida Zaz, muitos e muitos parabéns! E a história da inspiração Goyesca vem mesmo a calhar para a ceebração.
Festinha ao MC, como co-Autor
Muitas beijokas

Pelo aniversário e pelo restante historial aqui faço a minha vénia 🙂

Beijinhos

Viva, rapaz, obrigada!
Ao tempo que não te apanhava. Ainda não fui ao Dragão. Mas ontem estava bem divertido com aquele jogo floral de poesia cientoina
“:O))))
Isto é mesmo para evitar que se ganhe juízo

Beijocas

Muitos parabens!

(que grande barracada la’ pelo Dragao, ja’ tinham idade para ter juizo :O) )

MP-S

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