Brugel, avaritia, detalhe

{Reposição, com ligeiras alterações, a propósito destas mágicas “actividades financeiras” que às vezes, em vez de oferecerem príncipe de sapo, dão bode}.

“Um bazar na cabeça”, é o que se pode concluir do relatório da vistoria técnica efectuada ao Cocanha.
E o caso não é para menos. Graças à amabilidade de um poeta-hortelão, que não se importou de descer a poesia ao nível das canalizações, a maquineta já está consertada e bem oleada.

No entanto, o progresso também tem destas coisas- a quinquilharia é barata e só a mão-de-obra é que mantém o luxo de outrora (neste caso o luxo foi à borla).

Explicando melhor, para quem não está a atingir a questão.
Hoje em dia substituem-se isolantes e rodas de vedação nas canalizações mas ninguém se lembraria de citar Shakespeare por tão banal tarefa. E muito menos tomar por pedra preciosa, saída da cabeça de um sapo, o tampão que se compra na loja de ferragens.
E ainda menos, achar que alguns malabarismos da alta-finança, podem ter a mesma origem de “bufarinheiros sapistas”.
Appone mulieri super mammas bufonem, ut ablactet eum, & moriatur mulier, sitque bufo grossus de lacte

Mas devíamos e não ficaria nada mal acrescentar-lhe estes versos:
Sweet are the uses of adversity,
Which, like the toad, ugly and venomous,
Wears yet a precious jewel in his head
.”

[“As You Like It,” Act II. Cena 1, 11. 12-14.]

Pois se o nosso tampão ou bujão esqueceu a semelhança com a mítica pedra do sapo- o bezoar, que se retirava da cabeça dos velhos batráquios para fins profilácticos, as boas das crapaudines francesas ainda guardam na etimologia a memória da semelhança visual.

A lenda é milenar e as derivações tão complexas que, em boa verdade, este é mais um dos casos em que a ficção acaba por se misturar com a ciência, acabando por terminar no estelionato dos bufarinheiros dos novos tempos.

Estas pedras mágicas, capazes de servirem de antídoto nos mais temíveis envenenamentos e estados de epilepsia, não passariam de cálculos desenvolvidos no estômago de alguns animais, incluindo nos malignos sapos, cujas lendas parasitárias eram bem mais poderosas que uma simples pedra no bucho de uma vaca ou de uma cabra.

Chamavam-lhes também os esteliones ou bufonites de stellio– estrelado, listado; sapo listado e buffone– sapo em latim, numa alusão aos lagartos e sua capacidade de transformação mimética. Característica esta que também se dizia possuírem as pedras batraquites, crapaudinas, saídas da cabeça de velhos sapos ou de olhos de serpente, capazes de aquecerem e humidificarem automaticamente, quando colocadas em contacto com venenos, absorvendo-os desta forma mágica.

O termo mais genérico em que todas se incluíam era o bezoar ,do bad- zehr” árabe ou persa “pad- zehr” significando antídoto, cuja origem científica é explicada pelo nosso Garcia da Orta, no Colóquio Acerca dos Simples e das Drogas.
Muito antes do sábio viajante, outros tentaram a ponte entre a lenda e o efeito farmacológico. Johannes de Cuba, no Hortus Sanitatis, apresenta a versão mais fabulosa, com o sapo ainda vivo, no momento em que o médico lhe extrai o estelione verde.

Casos houve em que o espírito se toldou pela necessidade de prova científica da façanha, originando algumas desgraças. Conta-se que Ambroise Paré (1510-1590), quis demonstrar estas potencialidades curativas na corte de Carlos IX, usando uma pedra vinda de Espanha e um pobre diabo, condenado por furto.
Envenenou-o o melhor que conseguiu e depois, diante do monarca, sacou da pedra do sapo, colocando-a em contacto com a cabeça do homem, na esperança de o salvar. O resultado redundou num enorme fiasco científico perante o monarca, mas quem se finou não foi o “artista”.

Ainda assim, as experiências prosseguiram, com alguns triunfos conhecidos, tornando-se hábito em qualquer enxoval, ou tesouro de personagem mais importante, o uso destes bezoares incrustados em anéis.
Ainda hoje se vendem, incluindo em antiquários ou nos catálogos da eBay, a preços mais populares.

Coube a Ulisse Aldrovandi (1522-1605) uma das primeiras sistematizações que os inclui no reino dos fósseis, juntando-lhes uma outra terminologia que também lhes estava associada- o bora, ou borax que mais não é que borato de sódio.

A meio caminho entre a lenda e a ciência, ainda se inscreve o exemplo de Garcia da Orta e os estudos de Paolo Bocone . Só com Baudamain (1779) foram estudados os bezoares, formados no corpo humano.

Se não fosse a permanência linguística espanhola, nas caixas de medição geodésica ou nas crapaudines de canalização francesa, o engenho pragmático do sapo bufão, nem nos nossos bujões ou tampões de bazares de bufarinhas tinha salvo a lenda.

Até porque, quando estas artes de bufarinhice garantem fazer de sapos cifrões, ainda há quem alimente os gulosos animais na cabeça, sonhando com o processo alquímico que também o metamorfoseará num esplendoroso magnata.

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Consultar: L. CHARBONNEAU-LASSAY, El bestiário de Cristo, El simbolismo animal en la Antigüedad y la Edad Media, 2 Vols., Palma de Maiorca, Sophia Perennis, 2ª ed., 1997.

Imagens: 1-Pieter Bruegel o Velho, Avaritia, c. 1525-30 (detalhe)2- crapaudines e outras ferragens; 3- Michael Mayer, Atlanta Fulgiens (emblema) 4- crapaudines;5- Johannes Cuba Hortus Santitatis 1498; 6- anel com pedra do sapo (do palato de uma raia), Salisbury and South Wiltshire Museum; 7-Bezoar (Pedra de Goa) Indo-português, séc XVII-XVIII; 8- pedra borax (borato de sódio; 6- crapaudina de caixa de expansão.