Numa janelinha de comentários do Blásfémias, o Levy encontrou a imagem certa para esta mise en abîme da disfunção ministerial no ramo do ensino: é a Villa Arpel do Jaques Tati.
Tudo é deliberadamente falso, mas armadilhado de complicados rituais tecnológicos para parecer moderno e respeitável, apesar de inútil.
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Acrescento-15/11:
Fica aqui a crónica de Vasco Pulido Valente que saiu hoje no Público. Recomenda-se e enquadra bem o diagnóstico neste cenário.

Os professores

O que é um bom professor? Antes de responder, dois pontos, Primeiro, não há, ou só há por milagre, bons professores numa escola má.
Segundo, não há bons professores, sem alunos bons: mais precisamente sem alunos com o interesse e a determinação de estudar. Uma boa escola implica uma cultura específica, um espírito colectivo, fins de uma cristalina clareza e o respeito geral da comunidade. Um amontoado de professores (por muito qualificados que sejam) e um amontoado de alunos, que se limitam a cumprir contrariadamente uma formalidade obrigatória, perante a indiferença da comunidade, não passam de um ersatz da verdadeira coisa. O sistema de ensino em Portugal é em grande parte um ersatz, em que a “avaliação” de professores não faz qualquer espécie de sentido e vai inevitavelmente resvalar para a injustiça e o abuso.

Dito isto, um bom professor, como sabe qualquer pessoa educada (hoje uma raridade zoológica), é o professor capaz de transmitir a paixão de aprender. Não é o professor “popular” ou o que “explica bem”. E não é, com certeza, o professor “dinâmico” que “melhora as notas” e diminui as “taxas de abandono”, com que a sra. ministra sonha. A elevadíssima ambição de apresentar à “Europa” e ao governo “estatísticas” menos miseráveis nunca serviu de critério pedagógico. Mas basta olhar o modelo oficial das “provas” de “avaliação” para se perceber que serve agora de único critério pedagógico.
Manifestamente a sra. ministra decidiu pôr os professores a trabalhar para os números. Para os números dela.

Não vale a pena examinar a “avaliação” que se prepara. Da desordem disciplinar ao vexame de um “polícia” na aula; da vigilância dos “faltosos” (completamente inútil) a actividades extracurriculares (que ninguém pediu e de que ninguém gosta); da “meta” dos “resultados” (que nada significa e é falsificável) à obrigação grotesca de estabelecer, para cada “objectivo” burocrático, um “objectivo estratégico”, um “objectivo táctico” e um “objectivo operacional” — a insensatez não pára, E provavelmente não irá parar. A sra. ministra não é deste mundo. E ouve vozes.
Perante a balbúrdia e os protestos, que provocou, continua convencida da sua razão. Quanto ao governo e ao PS já descobriram o culpado — como de costume, o PC— e também querem “estatísticas” que não envergonhem a Pátria. O ensino não conta.

«Tudo é deliberadamente falso, mas armadilhado de complicados rituais tecnológicos para parecer moderno e respeitável, apesar de inútil.»

Isto não é um comentário (alegórico e gongórico) ao 100.º aniversário de Manoel de Oliveira, esse “Dinossauro Excelentíssimo” do cinema paralítico?

Bem, eles são 140 mil e não conheço assim tantos, por isso…

Mas conheço a papelada ministerial (ainda que não me atinja em nada) e essa sim, chumbo-a já.

Está online e vale a pena ler para se ter uma ideia mais isenta. Assim como aquela lei escrita com os pés- a do estatuto do aluno.

Mais uma coisa ainda:

Pergunto também (eu que não votei Sócrates) que outra alternativa haveria melhor, numa altura mundial péssima?

Será que o que os portugueses gostam é dum estado sem rei nem roque ? O PSD é o que se vê, o obsoleto PC? o azedo Bloco de Esquerda? O confuso CDS?

Sinceramente, algum faria melhor?

E repito: nõ votei nem votaria Sócrates mas acho que tem tentado por os pontos nos iis a muita coisa que nem sabia que a letra i existia!

excelente a analogia mas, pergunto eu, por grande razão que o Pulido Valente tem o que é um facto é que a maioria dos professores eram/são uma “balda” (conheço muitos…).

Quanto aos empregados de estado … também conheço e sei e vi o laxismo que existia … (e que ainda há, para além dos compadrios…).

Toda a minha vida laboral foi feita numa multinacional. Habituada SEMPRE a avaliações anuais concordo com elas plenamente. O problema é elas resultarem nos empregos de estado.

Não resulta, não poderá resultar com o que vejo e sei que se passa nesses meios tantas vezes tão pequeninos e mesquinhos. E aí… os compadrios voltam a actuar.
E aí a ministra, que quer, na verdade os “nrs.” para apresentar na Comunidade E., vai acabar por ter e não ter razão.

É verdade, é, José. Foi um achado esta imagem.

A Villa Arpel é a melhor alegoria, para esta pessegada da Educação…e não só: é mesmo a imagem perfeita deste primeiro-ministro. É tudo fachada em trompe l´oeil.

Desde o curso na Indy, o percurso profissional, a competência para governar, etc etc.

Tudo fake, neste gajo.

E o pior é que há quem vá atrás desta imagem falseada.

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