Seguindo a crónica dos Feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara, apercebemo-nos que a Guerra Santa em terras africanas, iniciada com a tomada de Ceuta, tinha mais em vista encontrar o fabuloso reino do Prestes João que propriamente desenvolver um moderno empório comercial.
Atlas Universal de Diogo Homem, 1558, British Library, Londres (Add. Ms. 5415 A)Pelo menos assim foi inicialmente, inclusive nos planos náuticos do Infante D. Henrique que também estava convencido da existência do tricentenário monarca, cuja fonte em terras do Nilo devia manter a eterna juventude, se não no corpo, pelo menos na lenda.

Em 1427 seguem navegadores com essa missão, procurando ao longo da costa africana todas as informações possíveis e impossíveis para darem conta desse magnífico reino cristão.

Quando Antão Gonçalves chegou à terra dos azegnegues, um escudeiro ofereceu-se para lá ficar durante seis meses a fim de se inteirar dos segredos, mas o sacrifício “etnográfico” de nada serviu.

Prestes João branco, Wappenbuch de Conrad Grunenberg, Constância, 180, Munchen, Bauerische Staastiblioteck, Cgm, 145, p.53)Em 1445 é a vez de Diniz Dias aportar no Senegal, ficando de tal modo pasmado com o tamanho do rio que regressou ao reino com a boa-nova- era o Nilo- tinham chegado ao rio Nilo e, logo a seguir, a começar no mar Vermelho, virando mais à frente, havia de estar a Etiópia.

De tal modo foi este entusiasmo com as terras do prestes João em África, que em quarenta e oito um fidalgo dinamarquês, de nome Valarte, parte para o local com uma carta e boas recomendações do Infante navegador, a fim de o cativar para o serviço conjunto em prol da fé cristã.

O que se passou a seguir ao desembarque deve ter sido cena digna dos Monty Python da época. Valarte e o séquito português encontram-se em plena praia com os negros locais e o seu chefe, sacam da carta e põe-se ali a lê-la a plenos pulmões, enquanto a população se acotovelava para assistir ao feitiço.

Apesar de ninguém ter percebido nada do que se passava, ambas as partes esmeraram-se na etiqueta. Os negros, carregando cabras, cabritos, leite, mel, farinha, dentes de elefante e outros mimos e os nossos bravos, retribuindo-lhes com panos de cor e outras bugigangas idênticas, já que pelos dialectos, nem com mímica se entenderam.
Entretanto Boor, o chefe tribal, tomado pelo Prestes das Índias, desapareceu no nevoeiro. O bravo viking não se ficou e decidiu aventurar-se sozinho em sua busca. Mas, desta vez, os negros que o rodearam não pareciam estar novamente interessado em leituras mágicas e o valente do Valarte lá foi tomado, possivelmente para compensar a falta de vitelos ao jantar.
As buscas do soberano etíope continuaram e à custa delas veio o monopólio do sabão enriquino seguido das especiarias indianas que faltava, mais as negaças do prestes.

Prestes João Negro, detalhe do Mapa-Mundo Catalão (Modena, 1450-60, Biblioteca Estense,inv. C.G.A.I.)D. João II continuou a cismar nesta busca e pelo meio da missão de Pero da Covilhã e Afonso de Paiva que redundou na morte Afonso de Paiva e na riqueza e boa vida de Pero da Covilhã na Etiópia, de onde nunca mais saiu, apesar da desfeita na lenda, ainda ocorreu outro episódio digno de nota.

João de Barros refere-o nas Décadas- quando João Afonso de Aveiro explorava o reino do Benim, persuadiu-se que os negros lhe tinham indicado o reino do Prestes João, de ali a vinte luas a andar a pé e lá partiram todos para o interior. Mais convencidos ficaram que tinham chegado ao mítico reino, quando um príncipe local lhes oferece um casco de latão e uma cruz reluzente.
O nosso embaixador em terras africanas encasquetou de tal modo que este príncipe Ogané era o mítico católico João, que não arredou pé. O mesmo não se pode dizer do africano autóctone, pois, ainda que nunca se deixasse ver, enquanto ia despachando serviço de Estado, atrás das cortinas, de vez em quando lá mostrava um pé, em sinal de que estava ali dentro e aceitava todas as ofertas que lhe depositavam à porta da cubata.

E ainda bem que o negro pezinho de escol se deu a ver. Porque o nosso Príncipe Perfeito, quando soube do caso, não hesitou – este e outros sinais, indicavam que o caminho para a índia se faria por via marítima pelo Sul da costa africana.
………..
Para o Prestes João, consultar Manuel João Ramos, Ensaios de Mitologia Cristã, Lisboa, Assírio e Alvim, 1997

É muito bonito, é. E tu és um amor de rapaz

“;O))

Beijocas e bom fim-de-semana para ti também

Sabia que ias gostar.

Bom fim-de-semana. Beijocas.

(E o livro é bonito, não é?)

óh que maravilha, Antónimo, o que havias de desencantar
“:O))

Beijocas rapaz.
Estes arquivos da web têm cada surpresa.

Um presentinho para a madrinha (e convivas):

INFANTE

Folgo de vos ouvir. Se é que neste momento
Pode haver para mim algum contentamento.
Demais tenho receio . . .

(voltando-se para João Fernandes)

Esperava escutar-te
Novas boas ou más da viagem de Valarte.
Sejam as mais cruéis, dize ; não mas escondas . . .

(João Fernandes mostra grande embaraço)

João Fernandes, então?! Afogaram-no as ondas…

JOÃO FERNANDES

(Indeciso)
Não as conheço bem…

INFANTE

(dolorosamente)

Ah ! Sim… teve má sorte .

JOÃO FERNANDES

(decidindo- se)

Valarte, meu Senhor, houve mui cruel morte.
O sangue é que o perdeu ; era ardente de mais.
Mal chegou á Guiné, pediu aos naturais,
Gente cuja traição sempre foi manifesta,
Que o guiassem em terra ao denso da floresta,
A caçar o elefante. E do seu desatino
Ninguém o demoveu. Era já o Destino.
Lá foi, mas não voltou; lá morreu prisioneiro ;
Mataram-no, depois dum cruel cativeiro.

(Pausa. Com saudade)

Como na quieta noite a estrela que desceu
Inda traçou na queda uma esteira no Céu,
Assim Valarte foi: queimou-se como um astro,
Engolfou-se no abismo e inda vive no rastro.

INFANTE

(com a cabeça entre as mãos, numa voz de amargura)

Restava-me ainda mais esta gota na taça. (Pausa)
A sina de Lobrog, o herói da tua raça,
Tinha que se cumprir. E que sina tão crua!
O seu «Canto de Morte» era-o, também, da tua.
Valarte, meu irmão!…

(fica num profundo abatimento)

Jaime Cortesão, O Infante de Sagres, Porto, Renascença Portuguesa, s.d. [1916], pp. 88-89. Com duas canções e “Nota Final”, a rematarem o volume.

giro!!!

Pronto, já está. Era erro tosco, pois e tratava-se do Senegal.
………….

Ccz, obrigada pela historieta dos mongois. A wiki inglesa está cada vez melhor, a nossa/brazuca é que é uma vergonha

Pois é. Eu também tive dúvidas, mas ele fala em cabo Verde. Logo confirmo que cabo era esse.

Mas olha que tu tens uma lata… l’amore, l’amore mas quem fala italiano não sou eu…

ehheheh

Beijocas aos dois. Logo arranjo o post.

Está aqui
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http://en.wikipedia.org/wiki/Mongol_invasions_of_Japan
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Ver o capítulo “Significance”

ehehe
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Essa do Valarte é mesmo digna dos Monthy.
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Pero todavia, de acordo, com o que contam alguns historiadores foi o que aconteceu durante a primeira invasão mongol ao Japão.
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Pelos vistos era costume os japoneses em batalha lutarem com inimigos do mesmo estatuto social, assim, era impensável um nobre combater com um camponês engajado, tal seria degradante e pouco ético.
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Para evitar isso, antes de cada batalha, com os exércitos frente a frente, emissários liam uma proclamação que identificava os nobres presentes e a sua linhagem.
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Quando a testa do destacamento dos primeiros mongóis desembarcaram na praia, ficaram atónitos com a reacção japonesa… enquanto os mongóis cavalgavam para a batalha, os emissários recitavam a proclamação e os nobres aguardavam a proclamação mongol…
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Foi uma limpeza.
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ccz

Ó madrinha, está a redacção algo confusa: o Cabo Verde de Dinis Dias é no Senegal – que isso de procurar o Nilo em ilhas é má cartografia. As ilhas, estava eu convencido de que eram desertas: ora tanta conversa, tanta troca, tanto elefante, assim para ali numas ilhas desertas só poderia indiciar que os tipos tinham ido dormir a Chefchaouen antes de seguirem viagem – brocas prá bronquite.

(L’Amore, l’Amore, madrina, è distraente – ma bello)

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