«O INE e o Banco de Portugal descobriram que o governo regional da Madeira, por assim dizer, “escondeu” 1,7 mil milhões da despesa entre 2004 e 2011. Várias notabilidades descreveram o caso “muito grave” ou “gravíssimo” e até Bruxelas se resolveu mostrar “surpreendida”. O que francamente não se percebe. Desde o PREC que a impunidade tem distinguido a política portuguesa. A gente que, em 1975, destruiu alegremente a economia não sofreu o menor incómodo pessoal ou profissional; e a gente que proclamava pelas ruas a necessidade de “fuzilar a reacção” e de estabelecer rapidamente uma ditadura do PC acabou em Belém a receber a Ordem da “Liberdade” das mãos de Soares. Mesmo hoje, um passado “revolucionário” se considera uma recomendação e até uma espécie de graça social.

A década do “cavaquismo”, que de certa maneira foi a mais “severa”, foi também a década em que se fizeram ao país com uma arrasadora irresponsabilidade as mais fantasiosas promessas de um futuro radioso e próximo. “Portugal”, se bem se lembram, “estava na moda” e o dr. Cavaco criara “um homem novo” que iria maravilhar o mundo. Destas tolices nasceu a exigência de uma infinidade de direitos, que antes ninguém esperara ou pedira; e o inexplicável prestígio de meia dúzia de criaturas, que tomaram conta dos “negócios”, nem sempre da melhor maneira ou com a maior lisura. Quanto à “modernização” de Portugal, de que tanto se falava, acabou por ser a “modernização” do consumo, que preparou as desgraças do futuro. O dr. Cavaco é ainda uma espécie de herói e Presidente da República.

Guterres “deixou Portugal de tanga”, Barroso fugiu para o estrangeiro e Sócrates fabricou a desgraça que de repente nos caiu em cima. Mas quando Sócrates desapareceu, os políticos da direita e da esquerda decidiram que chegara a altura de mutuamente se absolverem das misérias da Pátria. E, por sua própria força e autoridade, decretaram que a partir do glorioso advento de Passos Coelho a regra era o esquecimento. Esta amnistia geral impede qualquer crítica pertinente, venha ela de que lado vier, e estende um fofo manto de suavidade sobre a nossa torpe e apática vida pública. Esta paz dos cemitérios manifestamente exclui Jardim. O que não é um mal. O mal é que não exclui as dúzias de oportunistas, que por aí se passeiam e que na televisão ou nos jornais não perdem uma oportunidade de nos dar conselhos.»

VPV (Público de hoje)