Tal como os movimentos milenaristas, também os prophetae evoluíram ao longo dos séculos. Enquanto Tanchelm e Eon se proclamavam deuses vivos, e Emico de Leiningen, o Pseudo-Balduíno e os vários pseudo-Fredericos se proclamavam Imperadores dos ùltimos Dias, homens como John Ball, Martinho Huska, Tomás Müntzer, mesmo Jan Matthys e Jan Bockelson contentavam-se com o papel de percursores e profetas do retorno de Cristo. Ao contrário dos líderes dos grandes levantamentos populares, em geral camponeses ou artesãos, os prophetae raras vezes eram ou tinham sido trabalhadores manuais. Umas vezes eram pequenso nobres; outras simples impostores; mas em geral eram intelectuais ou semi-intelectuais – o ex-padre que se tornava livre pregador era o tipo mais comum. E o que todos partilhavam era uma certa familiaridade com o mundo da profecia apocalíptica e e milenarista. Para mais, sempre que é possível traçar a carreira de algum deles, torna-se patente a sua obsessão pelas quimeras escatológicas muito antes de lhe ocorrer, no meio de algum abalo social, apoiar-se nos pobres como possíveis discípulos.

Geralmente o propheta possuía outra qualificação: um magnetismo pessoal que o tornava capaz, com um mínimo de verosimilhança, de reclamar um papel especial no prosseguir da História até à sua esperada consumação. E essa proclamação da parte do propheta influenciava profundamente o grupo que se formava em torno dele. Pois o que o propheta oferecia aos seus seguidores não era somente uma oportunidade de melhorar a sorte e escapar à premente ansiedade- era também e sobretudo o projecto de levar por diante uma missão divinamente ordenada de uma importância sem igual. Esta quimera cumpria uma função atomizada e como compensação emocional do seu abjecto estatuto; e assim também eles foram cativados.

Norman Cohn, Na Senda do Milénio versão no google