Tal como as árvores da Lua e do Sol, a mandrágora, as wak-wak ou a árvore dos gansos, este mito divulga-se a partir de relatos de viagens fabulosas ao Oriente.
Odorico diz que nunca os viu mas sabia da sua existência pois gentes dignas de crédito tinham falado da árvore que dava carneiros vegetais.
Localizou-os no reino de Caloy numas montanhas designadas por Crispadas, onde cresciam uns pompons enormes. Quando ficavam maduros, abriam-nos e lá dentro encontrava-se um animal de carne viva idêntico a um carneiro. E acrescenta:”Muitos são os que não querem acreditar e não por pelo que também é bem possível e credível como os gansos que na Irlanda crescem das árvores”.Um dos aspectos mais curiosos que esta lenda coloca prende-se com o seu estatuto linguístico e mítico, que neste caso se distingue do tradicionalmente fantástico e desconhecido. Os autores consideram-no uma maravilha por comparação a outras conhecidas.
Jean de Mandeville (1360) tal como Odorico, afirma com certa displicência que até nem há grande maravilha, pois no país dele também existe a árvore dos frutos dos gansos voadores (referindo-se à árvore dos barnacles) que são muito comestíveis tal como a dos que mal caem em terra e morrem
“Non pour quand ie leur dis que je ne le tenoie pas a grant merveille, car aussi bien avait-il arbre en nostre pays qui portent fruit que deviennent oysel volant e sont bons pour manger, et ceuls que chieent a terre meurent tantôt” (Jean de Mandeville, The buke of J. Mandevil, Westminster, 1889).

troca-de-presentes E as maravilhas trocam-se. Numa das iluminuras do Livre des Merveilles do duque de Berry, o relato é incluído, podendo observar-se uma cena de troca de presentes. Dois orientais que oferecem um destes frutos de carneiros, e três ocidentais respondem-lhes com um raminho da tradicional raridade irlandesa da árvore que dá gansos.

Noutras variantes da lenda, o ser fantástico possuiu a forma completa de um carneiro que se liga ao solo por meio de um estaca em forma de raiz, fazendo morrer toda a vegetação em redor e possuindo mesmo capacidade para se locomover. A dada altura tinha o mesmo fim de idênticas plantas zoomórficas ou antropomórficas- libertava-se da estaca e morria.

A lenda ultrapassa em muito os tempos medievos mas mantém a ingenuidade fabulosa nos relatos que se lhe reportam. O famoso carneiro vegetal, também conhecido por carneiro da Cítia, carneiro tártaro, da Sibéria ou barometz, que em russo significa precisamente carneiro, é também descrito pelo Barão de Herberstein, embaixador de Maximiano I e Carlos V que esteve Moscovo entre 1511 e 1526. No Rerum Muscoviticarum Commentarii, editado em 1549, relata que por lá importavam-se de Veneza de Samarcanda“peles tiradas de um certa planta que se cresce nesse país, que alguns muçulmanos aproveitavam para com elas fazer bonés”. E confirma a fábula da dita planta Samarcandeos de origem animal. “Tinha uma cabeça, sim, orelhas e outras partes de um carneiro recém-nascido. Primeiro tomei estes Borametz por fabulosos, as referências a eles eram-me confirmadas por tantas pessoas de crédito que achei por bem descrevê-lo.

Os dons curativos do espécime eram de tal modo atractivos que até o rei Luís XI de França os refere em correspondência trocada com o poderoso senhor de Florença- Lourenzo de Médicis.

Muito para além dos tempos medievos, continua a ser incluído entre as espécies vegetais como no caso do herbário de Claude Duret, publicado em 1605.

Aparece também como uma planta do jardim do Éden, no frontespício do Paraíso do Solo, Paraíso Terrestre espantoso tratado de jardinagem seiscentista de John Parkinson, feito Primeiro Botânico do Reino por Carlos I de Inglaterra.

(detalhe)

Referido por homens da ciência como Athanasius Kircher, por religiosos como o abade de Prévost, em pleno século XVII mantêm-se uma série de características fabulosas descritas em relatos de viajantes. É o caso do relato de Adam Olearius.O autor refere o testemunho dos moscovitas quanto ao dito carneiro-vegetal e acrescenta:” crescendo, ele muda de lugar, enquanto o tronco o permite e faz secar a erva em redor de tudo para onde se vira. Os moscovitas chamam a isto pastar ou tasquinhar...”

A verificação experimental e credibilidade do testemunho continuavam a servir de aval para uma “verdade” tão lendária como na Idade Média a das paragens exóticas, situadas nas margens da cristandade.

Deve ter sido esta transitoriedade entre o mito e a realidade que tanto perturbou o espírito das luzes de Diderot que o incluiu num artigo da Enciclopédia, como exemplo do tipo de factos extraordinários e prodigiosos que necessitam de maior cuidado na observação para serem tidos por verídicos.
“et ils l’écrivent avec ce ton de gravit‚ et de persuasion qui ne manque jamais d’en imposer. Ce sont des gens dont les lumières et la probité ne sont pas suspectes : tout dépose en leur faveur : ils sont crus; et par qui? par les premiers génies de leur temps ; et voilà tout d’un coup une nuée de témoignages plus puissants que le leur qui le fortifient, et qui forment pour ceux qui viendront un poids d’autorité auquel ils n’auront ni la force ni le courage de résister, et l’agneau de Scythie passera pour un être réel.

As hipóteses explicativas da lenda variam. Há quem pense que deriva de uma deturpação da árvore do algodão de Calicot ou Calecut, primeiro lugar a que aportou Vasco da Gama em 1498. Incluem-se neste caso as representações em que os carneiros saem de frutos em forma de melão, como sucede nas fantásticas viagens de Mandeville à Terra Santa.


A primeira explicação de cariz científico surge em meados do século XVIII com Hans Sloane, botânico da Royal Society of London, que parece ter sido o primeiro a procurar associar o carneiro fantástico a uma raiz de uma espécie de fetos que se desenvolve em pequenos tufos que fazem lembrar este animal.

Herbário desenhado por Elizabeth Blackwell,
(1700 – 1758)O nome acaba por ser adoptado pela comunidade científica e ainda hoje um polypodium barometz, apesar de parecer um carneirinho, já não nasce de frutos em forma de melões nem pasta agarrado ao solo por um cordão umbilical.

Outros estudiosos seguiram as vias da etnologia e estudo de lendas, como foi o caso de T. F. Thiselton-Dyer, que procedeu a um aturado levantamento de lendas orientais e chinesas. No tratado The Folk-lore of Plants, publicado em 1889, o autor chegou à conclusão que a história seria produto dessas lendas que referem humanóides agarrados ao solo por um cordão umbilical, que acabaram por desembocar no Ocidente através de um comentário ao Talmud, de meados do século XIII, da autoria do rabino Simone de Sens.

O antropólogo Ângelo Gubernatis ,no fantástico estudo La Mythologie des plantes ,viu a lenda como uma sucessão de trocas de palavras, sendo o cordeiro (baran em russo) nada mais que um animal aquático- um mexilhão, confundido na tradução latinizada com o diminutivo baranicula, e daí o surgimento da árvore dos barnacles (mexilhões) cujo mito é idêntico.

Da trágica prisão uterina ao solo que o alimenta e o mata, a mero rizoma fetal, o carneiro da Cítia ainda teve direito a uns versos pseudo- românticos de um poeta tão dado ao nonsense como esta história. Pós-moderno avant la lettre– Erasmus Darwin (1731-1802) tornou patético o lado encantador e delicodoce da própria poesia, parodiando-se a si próprio e transformando o género em clichés da moda.

“E’en round the pole the flames of love aspire,
And icy bosoms feel the sacred fire,
Cradled in snow, and fanned by arctic air,
Shines, gentle Barometz, the golden hair;
Rested in earth, each cloven hoof descends,
And round and round her flexile neck she bends.
Crops of the grey coral moss, and hoary thyme,
Or laps with rosy tongue the melting rime,
Eyes with mute tenderness her distant dam,
Or seems to bleat a vegetable lamb.”

Botanic Garden, The Loves of the Plants.

Bibliografia:
Baltrusaitis, Jurguis. Le Moyen Age Fantastique, Flammarion, Paris, 1981
Lascault, Gilbert, Le Monstre dans l’Art Occidental, Klincksieck, Paris, 1973
Kappler, Claude, Monstres, Démons et merveilles à la fin do Moyen Age, Payot, Paris, 1980
Wittkower, Rudolf, Allegory and the Migration of Symbols, Thames and Hudson, Londres, 1987.

Texto fantástico.

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