Na mitologia grega, Mnemosina era a deusa da memória, em cujo poço até os mortos podiam recuperar as imagens do passado perdido. Foi também ela quem gerou todas as musas a quem se deve a inspiração do saber e da arte.
Este processo, entre o que se gera a partir do cérebro e a informação que se recebe para nele se arrecadarem memórias, paixonou todas as épocas, tendo servido para as hipóteses mais fabulosas como para as descobertas científicas mais imprevistas.
A principal teoria que se usou durante toda a Idade Média e que transitou para época moderna, baseava-se na explicação dos simulacros de Lucrécio de que já se falou aqui Os duplos dos corpos entravam pelos olhos e inscreviam-se nas bossas do cérebro, deixando nele marcas matrizes que serviam depois para a combinação de diferentes elementos.
A possibilidade de trabalhar este repositório de imagens-memória foi conhecida desde a Antiguidade como a arte da mnemónica, cujo uso começou por servir para a retórica e chegou aos nossos dias aplicado à linguagem electrónica e comunicação multimédia.
Ars Memorandi- Rhetorica ad Herennium escrito no século I, é o tratado mais antigo que se conhece e tinha como função esse auxíliar os oradores por meio de associações de locais e imagens de edifícios a passagens do discurso. Cícero recuperou e alargou os exemplos e durante a Idade Média a mnemónica foi usada pelos monges como forma de memorização de escritos sagrados.

Teoricamente assentava na ideia do ensino da inteligibilidade das coisas através da sensibilidade, supondo-se que o entendimento dos conceitos abstractos necessitava desta muleta de imagens reais para ser absorvido pela mente.
As imagens captadas pelos olhos serviam de tropos de marcação do percurso de lembrança dos conceitos. Deste modo foi-se criando um corpo figurativo que incluía correspondências gramaticais, artigos de fé, virtudes e pecados e outros textos,levando ao prodígio de se decorarem evangelhos inteiros à sua custa.
A ars memorandi foi sofrendo derivações, algumas muito mais importantes, como foi o caso da Ars Combinatoria de Raimundo Lull que está na génese da lógica formalista. A partir do Renascimento teve derivações paralelas em jogos de corte e outras charadas rebuscadas que iam progressivamente perdendo a tradição religiosa para a bizarria erudita.

O tratado de Ars Memorandi, publicado em 1470 no alto Reno, inclui as mais populares destas estranhas gravuras sincréticas de cariz religioso, cuja popularidade levou a edições posterirores com imagens coloridas.
As figuras monstruosas que simbolizam passagens dos Evangelhos incluem a representação zoomórfica dos evangelistas que havia sido condenada pela ortodoxia católica, transformando-os em autênticos monsttros. Pelo paradoxo e grotesco das figurações, aproxima-se das paradoxais figuras de mulheres e homens ideais que também se tornaram moda nas cortes renascentistas.


O carácter insólito desta combinação de elementos mostra um sentido agudo do prodígio e de uma noção muito moderna para a época- o espírito para se concentrar num assunto necessitava de coisas que chocassem a atenção do olhar.
Na prática, mais do que ajudas à memória são autênticas charadas onde a curiosidade se perder no mero gozo da decifração do enigma.
Só por grande ingenuidade de um olhar pouco habituado a usufruir representações figurativas é que não seriam motivo para riso.

[exemplos:- Duas cabeças humanas surgem dos lados da cabeça da águia que simboliza S. João Evangelista, sobre a qual se pendura uma pomba.- a águia tricéfala corresponde à Trindade cap. I do Evangelho segundo S. João.
– No peito do pássaro está suspenso um alaúde e 3 sacos de dinheiro. O alaúde significa as Núpcias de Cana; os sacos de dinheiro- os vendilhões do templo (cap.II)
– Na cauda estão penduradas uma coroa e uma selha. Correspondem ao encontro de Cristo com a Samaritana e a coroa significa o filho de um oficial do rei (cap.III)
– Em cima das asas estão colocados pães e peixes. (símbolo da última ceia)
-Uma águia só com uma cabeça, em cima da qual se encontra uma flauta, um copo e uma bandeira-
Do seu corpo saem de uma espécie de algibeira os torsos de um homem e mulher nus= o par do adultério. A mulher tem uma vela acesa na mão= Jesus luz do Mundo (cap. VIII evangelho segundo S- João)
– No baixo ventre abre-se um grande olho= o olho do cego recém-nascido (cap. IX)]

Em 1885, o iconoclasta Alfred Jarry retoma o tema no teatro de CésarAnticristo, introduzindo um complexo sistema de brasões simbólicos na derivação do nonsense e absurdo do Rei Ubu.
Sob a forma de herálidica subvertida e herética, estas mnemónicas sintetizam a teoria do Signo, como aquilo que não designa nem identifica mas mostra, fazendo recordar por coincidência de contrários (à maneira de Nicolau de Cusa) imagens originais que entretanto entraram no esquecimento

“O patafísico anão cimeiro do gigante, que está para lá das metafísicas é o Anticristo e também Deus, cavalo do espírito, Menos-em-Mais, cinemática do zero permanecendo nos olhos, poliédrico infinito”.

Nove anos depos, Jarry, juntamente com Gourmont, cria a revista L’Ymagier onde se publicaram águas fortes de Gauguin e outros simbolistas da sua geração, misturadas com gravuras antigas, imagens populares da recolha de L’Épinal incluindo mais variações em torno das mnemónicas visuais.
Esta espantosa colectânea que ainda hoje está activa é um bom local para se encontrar o fio à meada de muitas iconografias perdidas.
Curiosamente, uma das figurações que o Alfred Jarry usou parece que já tinha sido editada por cá muito tempo antes…

Imagens:
1- Mnemosina, Altar de Zéus em Pérgamo
2- Lugares de memória na cidade e na abadia.(Johann Host von Romberg Kyrspensis,Congestorium Artificiose Memorie,Veneza, 1520)
3- Image mnemónica do Evangelho segundo S.Marcos. (Ars memorandi notabilis per figuras Evangelistarum, anónimo, 1470)
4-5-
mnemónicas dos Evangelhos de S. João e S. Lucas da edição de 1502
6- Homem perfeito- A. Ulrich von Utten, 1513
7- Alfred Jarry- César Anticristo- figura do rei Ubu inclinado no cavalo, inspirada nos cavaleiros do Apocalipse de Dürer

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haja pachorra,

olhe, já agora o próximo post que vou mandar é totalmente por conta e risco próprio porque nem no Baltrusaitis teve inspiração.

Se achar um disparate fique à vontade e diga.

Quanto a este sinceramente que quero mesmo que critique porque isto foi uma treta de divulgação mas não quero que mesmo assim tenha erros

haja pachorra;

não, não anda a fazer tese com o Moisés, eu é mais é bolos…
quero dizer: apenas postei isto por recolha de imagens. Mas tem toda a razão que para se falar do assunto seria bom ler, pelo menos, o The Memory Book-
:http://www.amazon.com/exec/obidos/tg/detail/-/0345410025/102-0912753-4964103?v=glance

ainda assim não creio que tenha dito asneira. De qualquer forma se o disse nem foi minha, foi do Baltrusaitis, por exemplo que divulgou estas coisas por interesses inconográficos que são os meus.

bjs

Mas fiqeu à vontade e aponte os erros. Eu sei que devia ter explicado que as imagens do homem e mulher perfeito já vêm da Idade Média embora as gravuras mais conhecidas sejam muito posteriores. Assim como devia ter falado dos cânones dos grotescos renascentistas e confrontado com estas figurações que não entram no domínio do ornmanento mas da “escrita”

Zazie, este pode bem concorrer para o “post” do semestre. Para mais, tenho uma curiosa gravura da Mnemosina na parede do meu escritório. A minha primeira intenção era homenagear as Musas. Mas não tinha parede para representações individuais de todas elas e não achei estampa de grupo que me agradasse. Pôr só as duas de que mais gosto pareceu-me imprudência, não fossem as outras zangar-se comigo…
Optei por homenagear-lhes a Mãe. Assim todos ficamos contentes. E a memória ainda é do melhor que nos resta.

  • haja pachorra

Oiça lá, anda a fazer tese com o Moisés Espírito Santo ou quê’ Ah, se é mais o ‘ou quê’ convinha ler Carruthers e Yates…

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