Ainda que Hesíodo tenha sido dos primeiros as reportar-se aos cinocéfalos, quem primeiro descreveu os seus hábitos foi Ctésias de Cnido.O relato foi transmito por Photios (c.827-891) e dele constam detalhes de minúcia tão apurada como no mais cientifico estudo de costumes.

[tímpano de Sainte Marie-Madeleine de Vézelay]

Circunscrevendo-os à Índia, explica o autor que, apesar de terem aspecto canídeo e não falarem qualquer língua, entendem-se muito bem entre eles, compreendem perfeitamente as línguas dos outros indianos e dialogam com eles por meio de mímica, tal como os surdos-mudos.
Possuem lei, vivem da caça e fora isso nunca trabalham.

Cozem os espécimes caçcados ao sol, bebem leite de cabra, não deixam de incluir a fruta na alimentação, principalmente de uns frutos adocicados da árvore das liptachoras (a do âmbar),que deixam secar e conservam em cestos juntando-lhes flores púrpuras de tintura que aproveitam depois para vender anualmente aos indianos.
O mesmo presente de âmbar vermelho é oferecido ao rei e o resto é trocado por farinha, pão, algodão, espadas e arcos com flechas que utilizam para caçar.
São tidos por invencíveis pois vivem em montanhas escarpadas e o monarca nunca se esquece de lhes enviar de cinco em cinco anos suficiente material bélico que chega a atingir os trezento mil arcos, outro tanto de lanças e cinquenta mil espadas.
Habitam grutas e as mulheres só se lavam uma vez por mês, depois das regras. Os homens nunca se banham e apenas lavam as mãos.
No entanto untam o corpo com óleo retirado do leite três vezes por ano. Usam vestes de pele, idêntica para os dois sexos e os mais ricos (que são poucos) usam fatos de linho. Dormem todo sobre folhas.
O que tiver maior número de camelos passa por ser o mais rico, mas a maioria do património é dividido comunitariamente.
Homens e mulheres possuem uma cauda, como os cães, mas a delas é mais comprida e mais felpuda.
Têm relações por trás, como os cães e fazê-lo de outra maneira é tido por infâmia. São aprazíveis, amam a justiça e têm longa vida, chegando a atingir duzentos anos.
(adaptação de Migne, Patrologiae Graeca, 103, col. 222s.)

Entre os vários parentes menores existem os Cinamolgus que para além da cabeça de cão idêntica aos demais cinocéfalos, possuem umas peculiares orelhas ponteagudas que tanto Plínio, na Historia Natural como Solino, na Collectanea rerum memorabilium ou o Pseudo Ovídeo no De mirabilis mundi não se esquecem de recordar.

Infelizmente a ciência esqueceu todos estes pergaminhos. No caso destes últimos parentes, acabaram a dar o nome a uma variante de macacos de cauda negra, comuns na Índia e em Sumatra, particularmente usados em testes de síndromes das vias respiratórias e outras doenças humanas.

Ehehhe não queria mais nada, Paulo, cinocéfalas cinéfilas e dolce vita

Beijinhos

Querida Zazie: comecei por ficar fascinado: gente com um Rei e que, fora as expedições venatórias, nunca trabalha, parecía-me o Paraíso na Terra. Além de que, como na primeira passagem pelo título tinha lido “cinéfilos”, já estava a fazer contas para me qualificar.
Agora com essa exótica higiene, acrescida da feminina, é bom não esquecer, desisto já. Podes passar o meu lugar – o da primazia – a outro.
Beijocas. O “post” está uma delícia.

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